FABRÍCIO LOBEL, ARETHA YARAK,
Folha de DE SÃO PAULO. Colaborou André Monteiro
O
preço da pedra de crack chegou a dobrar já no primeiro dia de pagamento dos 302
usuários da cracolândia que trabalham no programa Braços Abertos, da
prefeitura.
A
pedra, que custava R$ 10, sofreu variação de preço na tarde de ontem e chegou a
custar até R$ 20, segundo relatos de usuários à Folha no fluxo (local de venda
e consumo).
De
acordo com a prefeitura, 302 usuários receberam, em dinheiro, R$ 120 pela
semana de trabalho na varrição de praças e ruas.
O
pagamento também estimulou as vendas no comércio tradicional da região
–bolachas, salgadinhos, refrigerantes e outros produtos de consumo rápido foram
os mais procurados.
O
fluxo de dinheiro na cracolândia também reforçou uma prática comum entre os
usuários: a compra e revenda de pedras de crack.
No
fim do dia, após o frenesi provocado pela circulação de dinheiro novo, a pedra
já podia ser encontrada mais barata, a R$ 10.
O
pagamento resultou numa injeção de R$ 36.240 na economia da região.
'LUXO'
Isaacc
e a mulher, com R$ 240 em mãos, correram para garantir "um luxo" ao
quarto do hotel. "É hoje, é hoje que eu finalmente compro minha televisão
[usada]", disse.
Outros
aproveitaram para adquirir produtos de limpeza e de higiene. "Vou comprar
umas coisas com mais qualidade, não gostei do kit da prefeitura", afirmou
Clayton.
Adnan
Rodrigues usou o dinheiro para tentar evitar as recaídas. "Quero um pote
de doce de leite, o doce me ajuda a evitar abstinência", contou.
O
preço da pedra na cracolândia é R$ 10 há pelo menos dez anos, diz Bruno Ramos
Gomes, presidente da ONG É de Lei, que atua na região. Ele
não acredita que a inflação tenha sido causada pelo pagamento da prefeitura. "Talvez
ela esteja relacionada com a dificuldade de chegar pedra na área, dada à
repressão policial", diz.
Segundo
Heron do Carmo, economista da USP, o que ocorreu na cracolândia tem a ver com o
princípio elementar da inflação. "É a mesma coisa que ocorre com o preço
dos hotéis no Rio por causa da Copa", diz.
Ele
afirma que o aumento também pode ser explicado pela concentração da venda num
só lugar, que restringe as opções: "Achei a experiência da prefeitura
interessante, mas é uma coisa para se levar em conta na avaliação da
política", diz. "O usuário precisa primeiro ter um plano de vida. E
só aí receber um salário", afirma Gomes.

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