A dor de
Barbosa que o Brasil sentiu
- ALOISIO DE TOLEDO CÉSAR
O Estado de S.Paulo - 11/03
Não esteve sozinho o
ministro Joaquim Barbosa na dor estampada no rosto quando se deu conta de que o
colega Luís Roberto Barroso, no voto proferido, absolvia José Dirceu do crime
de formação de quadrilha e, assim, o deixava muito mais perto da porta de saída
da prisão. A consequência desastrosa do julgamento atinge em cheio o Judiciário
no momento em que recuperava sua imagem, tão desgastada.
Milhões de brasileiros que
acompanharam a decisão final dos embargos infringentes, ao longo da última
semana de fevereiro, sentiram a mesma indignação de Joaquim Barbosa e, se
pudessem exprimir tal contrariedade, talvez gritassem em coro que está na hora
de rever o critério de escolha de ministros para o Supremo Tribunal Federal
(STF). Uma escolha que deixasse o escolhido livre de ter de pagar o favor da
nomeação.
Serão beneficiados pelo
amolecimento já sacramentado exatamente os políticos petistas que
escandalizaram o País com sua conduta criminosa, porque permanecerão menos
tempo detrás das grades.
No momento em que o ministro
Joaquim Barbosa, referindo-se a Luís Roberto Barroso, falou em voto político,
voto de interesse do Partido dos Trabalhadores, não disse nenhuma novidade,
porque era exatamente essa a impressão causada por aquela decisão, proferida
com certo pedantismo. Apesar do esforço de Barroso, não conseguiu o ministro
propagar a ideia de um voto apenas jurídico.
O processo do mensalão, já
tão velho, teve a incrível qualidade de demonstrar a existência entre os
brasileiros de um sentimento nacional de justiça que pareceu estar adormecido
durante décadas. À medida que o julgamento avançava, conduzido por Joaquim
Barbosa, e indicava ser possível pôr gente rica na cadeia, esse sentimento de
justiça se viu recompensado e fortalecido. Melhorava a imagem do Judiciário.
Quando já estava para
encerrar-se, houve a necessidade de decidir se seriam recebidos ou não os
embargos infringentes propostos por alguns réus, principalmente os que faziam
parte do grupo íntimo do ex-presidente Lula. O risco desse julgamento estava na
possibilidade de reduzir a pena dos condenados e livrá-los da prisão em regime
fechado. Foi o que aconteceu.
Aparentemente sem remorso, e
também sem se mostrar envergonhado, Celso de Mello foi o ministro que
convalidou os embargos infringentes, admitindo-os, no ano passado. Como
resultado, meses depois novos ministros nomeados pela presidente Dilma
Rousseff, disciplinados como escoteiros, votaram a favor de deixar Dirceu mais
próximo da porta de saída.
Imagina-se que entre os
petistas tenha havido regozijo e festa, até mesmo porque a partir do final de
2014 o ministro Ricardo Lewandowski, que sempre defendeu José Dirceu, José
Genoino e Delúbio Soares, deverá assumir a presidência do Supremo. Com a
decisão de procedência dos embargos infringentes, chegará o momento de exame do
regime de progressão das penas. Enquanto o ministro Joaquim Barbosa se mantiver
na presidência do STF, e na relatoria do processo, as facilidades ocorrerão de
conformidade com o que diz a lei.
Há um cerco muito grande de
políticos em torno do ministro Joaquim Barbosa, decorrente da imagem que
construiu no País graças à sua conduta no Supremo. Os políticos oferecem-lhe
apoio para concorrer à Presidência da República e/ou ao Senado, acenando,
enfim, com a possibilidade de uma nova carreira pública.
Nascido numa região áspera
de Minas Gerais, pessoa que sofreu na infância e na adolescência as agruras de
uma vida marcada por preconceitos e privações, Barbosa acabou construindo com
as próprias pernas uma linda carreira jurídica, cresceu aos olhos de todos e
desfruta imagem pública raramente conseguida por outro brasileiro. Ele
demonstra ter consciência desse respeito e talvez se sinta dividido entre a
lealdade que deve à magistratura e à exortação, quem sabe tentadora, de uma
nova carreira na vida pública.
Enquanto estiver como
presidente do Supremo, Barbosa sabe que poderá exigir rigor no cumprimento das
condenações. Mas quando passar o cargo ao colega Lewandowski a realidade poderá
ser outra, porque a brandura desse ministro em relação a alguns dos condenados
sugere o risco de ocorrer o oposto. Sem dúvida alguma os condenados, e seus
advogados, estão ansiosos pela chegada de Lewandowski a presidente.
Diante desse quadro, é de
esperar que Joaquim Barbosa se mantenha no Supremo, onde sua voz será sempre
ouvida e poderá influir nas decisões. Eventual saída para carreira política
significaria deixar campo aberto para excessos de bondade dos ministros
tolerantes com os condenados. O seu mandato na presidência do Supremo expira no
fim do ano. Caso se aposente antes, para assumir nova carreira no malvisto
mundo político, o restante do mandato de dois anos será cumprido pelo mais
antigo ministro, ou seja, Celso de Mello, e somente depois seria a vez de
Ricardo Lewandowski, por dois anos.
Este ministro deverá assumir
a presidência do Supremo numa época bastante delicada, quando José Dirceu e a
sua turminha estarão lutando pela progressão das penas, algo que realmente
preocupa. O exemplo de desprezo pela Justiça dado pelos líderes e filiados do Partido
dos Trabalhadores - incluída a clara tentativa de desmoralizar as condenações
com dinheiro arrecadado coletivamente, em tom de deboche, para pagar as multas
dos punidos - deixa evidente a possibilidade de os condenados tentarem voltar,
no futuro, a disputar eleições.
É possível que esse seja
mesmo o sonho de cada um deles. Seria a forma de se vingarem dos que os
condenaram e também de tentarem retomar o projeto de fazer do Brasil uma
República socialista, preguiçosa e burra como Cuba ou, quem sabe, uma Venezuela
ainda pior do que a que nos assusta a cada dia pela desordem, que chega a ser
até maior do que a existente no Brasil.
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