Suporte às investigações internas na Petrobras
EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 27/03
Não se pode depender apenas de
investigações feitas pela empresa, dada a profundidade a que chegou seu
aparelhamento por esquemas político-partidários e sindicais.
Surpreendida ou não pela decisão da
presidente Dilma, amiga e superiora hierárquica, de reconhecer em nota oficial
a estranha tramitação dentro da empresa da compra a preços astronômicos da
refinaria de Pasadena (Texas, EUA), a presidente da Petrobras, Graça Foster,
precisava agir.
E a resposta veio em entrevista ao
GLOBO, publicada ontem, em que Graça foi além da protocolar comissão criada
para averiguar a aquisição da refinaria ao grupo belga Astra Oil, comprada
pelos belgas por US$ 42,5 milhões, e cuja metade foi repassada à estatal logo
depois por US$ 360 milhões — pode ter sido mais —, para tudo terminar numa
sangria de US$ 1,2 bilhão no caixa da empresa. A presidente adiantou que deseja
também conhecer a exótica história — vários negócios feitos pela Petrobras a
partir desta época, 2005/6 são de grande exotismo — de um comitê de
proprietários da refinaria criado acima do Conselho de Administração da
estatal, e do qual, mesmo tendo assumido há dois anos a Petrobras, ela não
tinha conhecimento. A comissão deverá, ainda, procurar saber o real motivo por
que o exonerado Nestor Cerveró não incluiu no resumo levado ao Conselho de
Administração, à época presidida pela ministra Dilma, cláusulas importantes no
negócio de aquisição da empresa — garantia de uma rentabilidade mínima aos
belgas e compra compulsória da posição acionária do sócio pela parte que
instaurasse algum litígio. Foi o que aconteceu com a Petrobras, obrigada, ao
final de uma luta na Justiça, a gastar outros US$ 820,5 milhões.
Mas o ponto referente ao tal comitê
aguça a curiosidade geral, e tem mesmo de ser esclarecido, porque nele estava,
representando a Petrobras, Paulo Roberto Costa, à época diretor de
Abastecimento e hoje sob custódia da Polícia Federal, com prisão preventiva
decretada pela Justiça, acusado de participar de grosso esquema de lavagem de
dinheiro. O fio da meada parece extenso. O mesmo Paulo Roberto aparece em outra
operação bilionária e estranha, a da construção, em curso, da refinaria Abreu e
Lima, em Pernambuco, em que Chávez e Lula selaram um acordo jamais cumprido
pelos venezuelanos. As contas todas caem na Petrobras e, tudo indica, bastante
superfaturadas.
Basta considerar que, orçada
inicialmente em US$ 2 bilhões, a refinaria custará quase dez vezes mais. As
pontas se ligam: diz o delegado da PF que investiga Paulo Roberto que foram
apreendidas planilhas junto ao ex-diretor da estatal com anotações sobre
promessa de ajuda às empreiteiras que atuam no canteiro de obras da Abreu e
Lima.
Como vários outros diretores, Paulo Roberto
era patrocinado por partidos políticos (PMDB e PP, afirma-se). A iniciativa de
Graça Foster de instituir a comissão interna é correta. Mas é preciso ajuda de
organismos de Estado (PF, MP, CGU, TCU). Apesar dos bons propósitos da
presidente, não se pode depender apenas de investigações feitas pela própria
empresa, dada a profundidade a que chegou seu aparelhamento por esquemas
político-partidários e sindicais.
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