POLÍCIA CONSTRANGIDA
EDITORIAL
O ESTADÃO
O
Estado de S.Paulo - 12/05
Está em curso no País uma
perigosa inversão de valores na área de segurança pública. A polícia, a quem
cabe a manutenção da ordem e a repressão ao crime, tem sido tratada por
formadores de opinião cada vez mais como uma entidade truculenta e criminosa, responsável
pela violência contra inocentes. Essa percepção poupa os delinquentes reais,
isto é, aqueles que de fato agridem a sociedade, enquanto os policiais são
submetidos a diversas formas de constrangimento a seu trabalho, muito além do
que determinam as leis e os manuais de conduta.
Tome-se o exemplo mais
recente, a morte do bailarino Douglas Rafael da Silva Pereira, conhecido como
DG, no morro Pavão-Pavãozinho, no Rio de Janeiro. Douglas provavelmente foi
vítima de tiroteio entre policiais e traficantes no local. Mesmo antes de saber
exatamente de onde partiu o tiro que o matou, moradores e familiares
imediatamente atribuíram o crime à polícia - a mãe do rapaz chegou a dizer que
ele foi torturado por policiais. Foi a senha para protestos contra a polícia,
que incluíram faixas nas quais se lia "Fora, UPP" e "UPP
assassina", referência às Unidades de Polícia Pacificadora, eixo da
política de segurança pública no Rio.
É compreensível que, sob
forte emoção, os familiares de Douglas tenham hostilizado aqueles que lhes
pareceram culpados pelo crime.
No entanto, o que se viu no
Rio foi a exploração grosseira da tragédia por parte dos que pretendem
enfraquecer a luta do Estado contra os narcotraficantes que há décadas dominam
os morros e as favelas do Rio.
Não é por outra razão,
aliás, que os famigerados black blocs, contumazes baderneiros, engrossaram as
manifestações. Para essa turma, lei e ordem são instrumentos de "dominação
burguesa". São os sócios perfeitos da bandidagem.
Como sabe todo cidadão
amante da paz social, a vida piorou nas grandes capitais brasileiras desde que
esses ativistas resolveram impor sua vontade sem qualquer consideração pelos
interesses coletivos, paralisando ruas e avenidas, quebrando vidraças de lojas
e de agências bancárias e incendiando carros e ônibus - tudo em nome de suas
utopias totalitárias.
Quando foi acionada para
fazer o que dela se espera, em alguns casos a polícia cometeu alguns equívocos
reprováveis, como o uso exagerado da força. Embora tenham sido pontuais, esses
problemas se transformaram imediatamente em senha para que se tentasse
desmoralizar todo o trabalho policial, transformando os agentes da lei em
inimigos, causando embaraços ao poder público e deixando o caminho livre para a
baderna travestida de "movimento social".
Formou-se então uma aliança
de conveniência entre o ativismo irresponsável e o crime organizado - que
ademais nadam de braçada graças a um discurso acadêmico e político
irresponsável que romantiza a afronta ao Estado e que qualifica a repressão policial,
por princípio, como um ataque aos pobres e à democracia.
É evidente que se deve
questionar a eficácia das UPPs como política de segurança pública, em razão da
reincidência da violência nos últimos tempos, assim como se deve criticar
duramente a truculência policial nas ruas de São Paulo, não só durante
manifestações, mas, principalmente, no dia a dia da cidade.
O descontentamento da
população com o trabalho da polícia, em especial quando demonstra seu
despreparo para atuar sob pressão, é legítimo e deve servir como incentivo para
que o Estado reforme e aperfeiçoe a corporação. Faltam, por exemplo,
instrumentos mais eficientes de controle da letalidade policial no Brasil, uma
das mais altas do mundo.
Isso nada tem a ver, porém,
com o exagerado descrédito das forças de segurança pública. Perguntar a quem
interessa alimentar essa imagem da polícia é ocioso.
Certamente não é ao cidadão
comum, que espera sair para o trabalho e voltar para casa sem ser molestado por
assaltantes, assassinos e traficantes ou bloqueado por ativistas fascistoides
que sequestram o espaço público e se nutrem do caos.
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