Dilma paga o pato
Dora
Kramer
O
Estado de S.Paulo – 07.05.2014
O PT procura espetar na
conta exclusiva da presidente Dilma Rousseff um débito que é coletivo. O que há
de errado agora foi celebrado pelo partido (e por que não dizer, por boa parte
dos aliados e dos setores beneficiados) como acerto, seja na política econômica
à época em que ela qualificou como "rudimentar" uma proposta de
ajuste de rumos do então ministro Antonio Palocci, seja no enfrentamento da
base parlamentar baseada na fantasia da "faxina" ou na lenda da
gestora mais espetacular da face da terra.
Enquanto tudo ia bem todos
achavam que estava tudo certo. As deficiências de Dilma eram evidentes desde a
época em que chefiava a Casa Civil. Basta lembrar suas maneiras desajeitadas na
tentativa de enfrentar os episódios do dossiê com as despesas de Ruth Cardoso
quando Fernando Henrique ocupava a Presidência e as denúncias envolvendo
Erenice Guerra, seu braço direito no ministério.
Deficiências estas que
ficaram inscritas em letras maiúsculas nos registros da história dos primeiros
momentos da campanha eleitoral de 2010, antes de o patrono e presidente Luiz
Inácio da Silva entrar em campo e falar pela candidata praticamente o tempo
todo. Ela era um desacerto só, inclusive nos debates. A despeito disso, foi
vista e recebida com extrema boa vontade.
A Dilma Rousseff presidente
não enganou ninguém. Não mudou. Diferentemente das circunstâncias. Quando as
coisas começaram a dar errado - e para infortúnio do governo e do PT, começaram
todas de uma vez - aí é que os companheiros de partido, os empresários, os
aliados, boa parte do eleitorado e até seu criador acharam por bem notar seus
defeitos, reclamar e atribuir a eles todos os males.
No momento em que sua figura
passou a representar a incerteza, Dilma foi posta na condição de devedora do
trem pagador. Como se seus índices de insatisfações fossem resultado do
desempenho da pessoa física. Não são: dizem respeito à pessoa jurídica PT S/A,
que assumiu o poder com o propósito explícito (dito à época com orgulho por
seus dirigentes) de construir uma hegemonia política, social e cultural no
Brasil.
Ocupar todos os espaços, o
que significa reduzir (para não dizer dizimar) as outras forças a papéis
meramente minoritários. Em português claro, quer dizer a intenção de
desconsiderar o fator alternância de poder. Para isso, o partido não poderia
criar atritos nem enfrentar conflitos, ainda que resultassem em avanços para o
País.
Desde o início, o governo do
PT escolheu o caminho que lhe pareceu o mais fácil. Não conseguiu maioria no
Parlamento? Atraia-se com dinheiro a maioria. Seria difícil prosseguir com as
reformas tributária, trabalhista, sindical, política, previdenciária?
Abandonem-se as reformas. É complicado imprimir um padrão mais decente de
relações entre Executivo e Legislativo? Revoguem-se as disposições em contrário
e locupletem-se todos. As forças do atraso criarão dificuldades? Abram-se alas
e recuperem-se seus espaços dando a elas lugares de honra, merecedores de todo
apreço e proteção.
Isso não começou no governo
Dilma. O esgotamento que se vê hoje é consequência de todos os abusos cometidos
em nome da acomodação de interesses com vista à execução de um projeto
partidário.
Quando Lula defendeu que o
deputado André Vargas se jogasse ao mar para que o PT não pagasse "o
pato", tentou transferir a responsabilidade de uma conta que foi por ele
avalizada, pelo partido foi chancelada e cuja fatura mais dia, menos dia ao
País seria apresentada.
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