No limbo
MERVAL
PEREIRA
O
GLOBO - 24/05
As pesquisas de opinião que
estão sendo divulgadas contêm, todas elas, um paradoxo que até o momento não
foi resolvido: como é possível que cerca de 70% dos eleitores queiram mudanças
no governo - e a maioria, inclusive, as quer substituindo a presidente Dilma
Rousseff -, e ao mesmo tempo ela continue sendo a favorita da eleição, com o
dobro de intenção de votos que o candidato mais bem colocado da oposição, o
senador Aécio Neves, do PSDB?
Os números internos da
pesquisa mostram mais coerência com esse sentimento de mudança do que seu
resultado final, e há estudos que indicam que é real a chance de a presidente
repetir a atuação do candidato José Serra, derrotado por ela em 2010. Durante
muitos meses o candidato tucano ficou à frente das pesquisas, nessa mesma faixa
de 40%, mas os indicadores internos das pesquisas já apontavam para sua
derrota.
O índice que obtinha era
mais produto do recall de suas campanhas anteriores, assim como o da presidente
Dilma hoje se deveria à sua permanente presença em atos públicos e ao recall da
última eleição. Que indicadores são esses?
A taxa de rejeição da
presidente Dilma hoje é estável e bem acima das dos seus adversários mais
fortes: ela tem 33% de eleitores que a rejeitam, enquanto Aécio Neves e Eduardo
Campos reduzem suas taxas de rejeição à medida que se tornam mais conhecidos -
o tucano para 20%, e o socialista para 13%.
A taxa de aprovação de seu
governo está no limbo , na definição do cientista político Alberto Carlos
Almeida, do Instituto Análise. Ele tem um estudo que mostra que, em 46 de 104
eleições para governador realizadas entre 1994 a 2010 em que havia um candidato
à reeleição, todos os que chegaram à eleição com o índice de ótimo e bom igual
ou maior do que 46% foram reeleitos.
Ao contrário, os que disputaram
a reeleição com a soma de ótimo e bom igual ou menor do que 34% foram
derrotados. Como a presidente Dilma tem atualmente 35% de ótimo e bom, segundo
a mais recente pesquisa do Ibope, estaria em situação delicada, à beira da
reeleição ou da derrota, segundo a forma como os números se comportarem durante
a campanha.
Nesse mesmo estudo, o
cientista político Alberto Carlos Almeida mostra que 40% a 43% dos candidatos à
reeleição nos governos dos estados que chegaram às urnas com índices de ótimo e
bom entre 35% e 45% se reelegeram, o que demonstra que a derrota é mais
provável nessa faixa de avaliação, embora não uma certeza.
Uma ressalva importante que
Alberto Carlos Almeida faz é que é possível melhorar a avaliação no decorrer da
campanha. Dilma terá três vezes mais tempo de propaganda eleitoral que o tucano
Aécio Neves e sete vezes mais que Eduardo Campos, do PSB.
Há dois exemplos clássicos
na nossa curta história da reeleição para presidente da República: Fernando
Henrique foi reeleito em 1998 com 43% de ótimo e bom, tendo saído de 38% em
julho. E Lula foi reeleito em 2006 com 47% de ótimo e bom, tendo os mesmos 38%
nesses quesitos em julho daquele ano.
O que esses indicadores
mostram é que a situação da presidente Dilma na atual eleição é mais desfavorável
do que a da eleição de 2010, quando tinha no então presidente Lula um fiador a
toda prova, com mais de 80% de aprovação popular e uma economia crescendo a
7,5% ao ano, bem ao contrário do que acontece hoje.
Dilma hoje é a candidata da
continuidade, quando a maioria quer mudanças, mas caberá aos candidatos da
oposição a tarefa de convencer os eleitores de que eles são capazes de realizar
as transformações que a sociedade quer, enquanto a campanha governista trabalha
com a ameaça que representaria uma mudança de governo na direção errada.
Além de todos os
instrumentos de que um presidente da República dispõe em um presidencialismo
forte como o brasileiro, a presidente Dilma tem a seu favor uma tendência que
marca as disputas eleitorais na América Latina, justamente pelo poder que o
Executivo acumula. A revista britânica The Economist ressalta que, desde 1985,
somente dois presidentes no exercício do cargo perderam a reeleição na região.
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