A primeira vítima
DORA
KRAMER
ESTADÃO
- 22/06
A frase é conhecida: “Na
guerra, a primeira vítima é a verdade”. A autoria é controversa, mas a
aplicação cabe de maneira inquestionável à reação do PT ante à constatação do
secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, de que a avaliação negativa
sobre o governo não é coisa só da “elite branca”.
Baixou o desconforto no
partido após a divulgação da conversa dele com blogueiros amigos, justamente às
vésperas da convenção que oficializaria neste sábado a candidatura de Dilma
Rousseff com ato de desagravo à presidente devido à agressão verbal sofrida na
abertura da Copa.
Se de um lado Carvalho
enfraqueceu o estratagema com seu testemunho imune à acusações de “golpismo”,
de outro o PT demonstrou que encara essa eleição como uma guerra e não se
intimida em fazer da verdade sua primeira vítima. Qualquer coisa serve para
construir uma narrativa que sirva para desviar a conversa dos problemas
concretos. Da economia que patina, do atendimento de saúde sofrível, da
educação vergonhosa, da segurança pública abaixo da crítica, da inflação
ameaçadora, do crescimento pífio, do envio da ética às favas, da transformação
do Estado em aparelho partidário etc.
Os companheiros de Gilberto
Carvalho acharam que ele deu munição ao adversário ao dizer aos blogueiros, em
conversa transmitida pela internet, coisas que os entusiastas do “Volta, Lula”
dentro do partido dizem de Dilma Rousseff com palavras muito menos gentis.
Algumas não ficando nada a dever às pronunciadas naquela tarde no Itaquerão.
Ora, o primeiro a fornecer munição
contra si foi o próprio governo produtor de todos os escândalos, trapalhadas
políticas, desacertos administrativos e zigue-zagues na política econômica; e
também o partido na aflição de ver Dilma fora da disputa pelo medo de perder a
eleição. A oposição, como se sabe, em todo o período teve desempenho pífio.
O “erro” do secretário-geral
for ter dito isso no momento em que os petistas acreditaram ter achado uma mina
para explorar, fazendo de Dilma a vítima de falta de educação alheia. Já haviam
tentado a tática dos fantasmas; ninguém deu bola, as pesquisas continuaram no
mesmo diapasão negativo. Veio em seguida a história do ódio que seria vencido
pela esperança e, de novo, nada. Por último, deu-se o inusitado: vaia
transformada em elogio, em trunfo eleitoral a ser explorado até o osso.
Saiu a primeira pesquisa
realizada depois de iniciada a Copa e onde estava registrada aquela
solidariedade toda à presidente? Pelos números, ateve-se às manifestações ao
terreno da civilidade, nada tendo a ver com política ou eleições. Na realidade,
a pesquisa do Ibope mostra que, em termos de decisão de voto do eleitor, as
intenções estão temporariamente suspensas, porque os interesses estão voltados
para os jogos. Os candidatos, todos eles, variaram pouca coisa, para mais ou
para menos. Quadro, portanto, estável.
Essa estabilidade também se
repete nos índices negativos de avaliação do governo, cuja desaprovação se
mantém superior (33%) à aprovação (31%). Todas as políticas públicas tiveram
altas taxas de rejeição, sendo que a saúde atingiu 78%, mesmo com toda a
propaganda em torno do programa Mais Médicos. Com Bolsa Família e tudo, a
desaprovação para a área de combate à pobreza é de 53%.
Os que não confiam na
presidente são 52% dos pesquisados. Ela continua na frente com 39% das
intenções de votos, o mesmo patamar de 2010 a essa altura do ano. Com uma
diferença: estava em ascensão e representava um governo com avaliação negativa
de 4%. Dilma é conhecida por 99% dos que responderam à pesquisa, sendo que 43%
dizem que não votam nela de jeito nenhum.
Convenhamos, haja elite
branca para dar conta disso tudo. Essa é uma verdade expressa em números que o
PT insiste em abater a golpes de invencionices que seriam apenas infantis, não
fossem motivadas por boa dose de má-fé.

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