Alívio imediato
DORA
KRAMER
O
ESTADÃO - 04/07
Em matéria de organização
está dando tudo certo, o país vive um momento de alto astral com a Copa do
Mundo. Portanto, nada mais natural que esse clima se reflita nas pesquisas de
opinião e que o governo, na pessoa da presidente Dilma Rousseff, seja o maior
beneficiário.
O instituto Datafolha faz a
ligação direta entre a melhora das intenções de votos (de 34% para 38%) e da
avaliação positiva do governo Dilma (de 33% para 35%) e a “mudança de humor
geral dos brasileiros”. De fato não há como se atribuir a qualquer outra razão,
porque nada aconteceu entre a última e a penúltima pesquisa a não ser a Copa.
Da mesma maneira como o
governo teria sido responsabilizado se aquelas expectativas negativas a
respeito do Mundial fora do campo tivessem se concretizado, muito justo que
receba o reconhecimento pelo bom funcionamento daquilo que dependeu do poder
público.
Fez a obrigação, mas de todo
modo é mérito. E se as pesquisas não retratassem isso, aí é que seria de o
governo se achar num beco sem saída. Fora aqueles pontos porcentuais a mais
citados no início, o restante da pesquisa não leva boas notícias ao Planalto.
A saber: o aumento não foi
proporcional à euforia que toma conta do país, os oponentes oscilaram para cima
(ou seja, o astral favoreceu todo mundo), a rejeição da presidente é o dobro do
segundo colocado que se aproxima dela na simulação de segundo turno e
desapareceu a dianteira de Dilma frente aos adversários.
Até a pesquisa anterior ela
dispunha de 34% das intenções de votos enquanto os adversários somavam 32%.
Hoje há empate: 38% a 38%. Reflexo do alívio (temporário?) também é a redução
daqueles que se diziam sem candidato. Eram 30% e agora são 24%.
A questão é: isso significa
um repentino ganho de confiança da população na tão desprestigiada atividade
política ou apenas quer dizer que a tendência geral é responder positivamente
quando estão motivadas por estímulos igualmente positivos embora de natureza
distinta?
Aqui não há como fugir do
lugar comum: a resposta fica ao encargo do tempo. Depois de a vida voltar ao
normal e a campanha começar é que poderemos conferir se o efeito é passageiro
ou duradouro.
Nada a ver com a missão dos
jogadores da seleção brasileira, nunca é demais repetir. Até para que sosseguem
o facho aqueles que acham que o caminho da vitória da oposição está na derrota
dentro de campo.
Bobagem abissal,
exaustivamente desmentida pelos fatos nos últimos 20 anos em que a regra foi a
desconexão entre o desempenho do Brasil nas Copas e o resultado das eleições.
Coincidência só em 1994. O
Brasil ganhou a Copa e o governo a eleição. Só que o vencedor nas urnas não foi
o futebol, mas o Plano Real.
Dilma não ganhará ou perderá
a eleição porque o time foi mal ou bem na Copa. Se perdermos, ela não pode ser
responsabilizada pelo que acontece dentro do campo.
Se ganharmos, nem por isso o
eleitorado brasileiro vai votar no dia 5 de outubro fantasiado de Fuleco ainda
sob os eflúvios do resultado de um jogo realizado há exatos 84 dias passados.
Não há emoção que tanto dure
nem razão que uma hora não se imponha. De onde a direção dos votos acompanha a
percepção do povo – que não é bobo – sobre qual dos candidatos considera com
mais capacidade de enfrentar e resolver os problemas da vida como ela é.
Formiga. É consenso que
Aécio Neves teve atuação pífia no Senado sob a ótica da expectativa de que
assumiria o lugar de líder da oposição com ataques permanentes e contundentes
ao governo.
Não fez nada disso e, para o
público externo, foi uma decepção. Agora, quando surgem os acordos regionais do
PSDB com vários partidos governistas é que surge a explicação: o tucano estava
ocupado com a conquista do público interno, construindo pontes com os colegas
senadores por intermédio dos quais iniciou o caminho rumo às alianças.

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