O dinheiro e a informação
CARLOS
ALBERTO SARDENBERG
O
GLOBO - 31/07
Qualquer analista diria que um segundo mandato da presidente
Dilma não seria bom para o investidor comum
Jornalistas, pelo menos aqui
no sistema Globo, não podem recomendar investimentos financeiros. Jornalistas e
comentaristas de economia não podem nem ter ações de qualquer empresa, pela
ética e pela prática. O profissional pode ser isento, mas as aparências contam
aqui. O público terá todo o direito de desconfiar do comentário, se souber que
um comentarista está vendendo ou comprando ações de uma estatal.
É a mesma coisa com os
jornalistas de gastronomia. Não podem aceitar uma boca-livre e depois comentar
sobre aquele restaurante.
Já houve muita fraude e
muito comportamento errado entre jornalistas, aqui e lá fora. Como prevenir?
Uma hipótese seria impor severa regulamentação legal para o trabalho dos
jornalistas — uma péssima saída porque levaria fatalmente a uma severa
restrição à liberdade de imprensa. O princípio maior é que a imprensa tem de
ser livre. Se é boa ou não, isso depende da sociedade, do público que vai
consumir ou não esta ou aquela publicação.
Por isso, veículos sérios
adotam códigos de ética. O controle interno é o melhor. Com o tempo, o público
reconhece o caráter do veículo. Distingue entre o chapa-branca e o isento,
entre o oportunista e o sério, entre o que quer fazer dinheiro a qualquer custo
e o que quer fazer dinheiro com o jornalismo sério.
Sim, claro, o jornalismo
sério se equivoca não raras vezes. Mas volta ao assunto, reconhece, refaz.
Tinha que ter alguma vantagem isso de ter de produzir notícia todos os dias...
Resumindo, jornalistas podem
tratar de qualquer tema, podem dizer que uma empresa vai bem — e mostrar os
dados — ou que um setor vai mal, mas não devem dizer “compre isto”, “venda sua
casa e aplique em juros”, coisas assim.
É diferente a situação dos
analistas de investimentos. O cliente de um banco precisa de orientações
específicas.
Analista de investimento é
uma profissão. “Broker” também. Para montar um grupo de investidores e formar,
por exemplo, um clube de ações, o sujeito precisa de licença e autorização da
Comissão de Valores Mobiliários. Idem para recomendar aplicações.
A regulamentação, aqui e lá
fora, também resulta de equívocos e malfeitos cometidos ao longo do tempo. O
mais comum era — e pode ser — o banco indicar investimentos que serão ruins
para o investidor e bons para o banco. Imagine que o banco, na sua Tesouraria,
comprou ações da Petrobras e quer se livrar delas. Se sair por aí dizendo que
os papéis da estatal vão subir e, para ajudar um pouco, colocar um “laranja”
para comprar lotes desses papéis e forçar uma valorização inicial, trata-se de
um grande roubo.
Tem lei e regulamentação
para tentar administrar o conflito de interesses que pode haver entre o
cliente/investidor, o banco e o dono do banco.
Por isso, o setor do banco
que se relaciona com os clientes, informando e sugerindo aplicações, tem que
ser independente. Deve ser assim num mercado sério. O Brasil tem melhorado
nesse aspecto, com regulamentações e prática. Uma delas é a ampla publicidade:
analistas de investimentos vêm a público todos os dias com seus relatórios.
Recomendam compra ou venda de ações, indicam qual o preço alvo. Os relatórios
vão para os clientes e frequentemente são distribuídos para a imprensa. Como
fazem as consultorias nacionais ou estrangeiras.
Ora, é evidente que a
política tem a ver com a economia. As políticas do governo Dilma provocaram
enorme desvalorização das ações da Petrobras, o caso mais forte. Questionada
sobre isso, a presidente já argumentou que as estatais não trabalham para
especuladores — e colocou assim no mesmo saco os grandes especuladores, os trabalhadores
que colocaram seu FGTS na estatal e o investidor comum que simplesmente pensava
em juntar algumas economias.
Tudo considerado, qualquer
analista diria que um segundo mandato da presidente Dilma não seria bom para o
investidor comum. Mesmo admitindo que a atual gestão da Petrobras pode trazer
resultados a longo prazo, o fato é que, no momento, a companhia não coloca o
lucro e o interesse do investidor minoritário como objetivo central.
Foi o que disse o pobre ou a
pobre analista do Santander. E é o que estão dizendo todos, repetindo, todos os
demais analistas há muito tempo. Normal.
Ruim foi a reação do
governo, escolhendo um alvo fácil para se declarar vítima de terrorismo, em vez
de contestar os dados. Ameaçou assim a liberdade de informação.
Pior foi a reação da direção
do banco, que pediu desculpas ao governo e demitiu o(a) analista. Disse que
ele(a) fizera coisa errada. Quer dizer que o certo é comprar ações quando
aumentarem as chances de Dilma? Os clientes do banco foram enganados nos
últimos relatórios ou estão sendo enganados agora?
E o dono do banco, Dom
Emilio Botin, defendeu o seu negócio. O governo é regulador e muito bom
cliente. Uma ordem, e governos, prefeituras e entidades públicas podem fechar
contas com o Santander. Resumo: prevaleceram o ataque à liberdade de informação
e de fazer negócios; e o interesse do banqueiro.

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