Duas décadas de estabilidade
EDITORIAL do JORNAL ZERO HORA
ZERO HORA - 01/07
Completa 20 anos hoje o Plano Real, o programa de reformas econômicas e
de estabilização da moeda que pôs fim à indexação da economia, livrou o país
das armadilhas de uma hiperinflação e permitiu aos brasileiros conviver com
duas décadas consecutivas de estabilidade, depois de cinco tentativas
fracassadas. Isso ocorreu porque o programa foi adotado de forma engenhosa e
contou com o respaldo de uma série de reformas, o que teve como efeito
colateral a eleição do então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso para
a Presidência da República. Independentemente de conotações políticas, que se
ampliam com a coincidência entre o aniversário e a campanha presidencial, o
fato é que o Real se transformou num patrimônio a ser preservado, o que depende
agora da ousadia de um novo ciclo de reformas.
Não foram poucas as dificuldades que antecederam a implantação do plano
e as que se mantêm até hoje. No início dos anos 90 do século passado, o custo
de vida chegou a alcançar 83% ao mês e quase 5.000% em 12 meses. No dia a dia,
o descontrole implicava tensão permanente, pois exigia maratonas diárias aos
bancos, numa tentativa de preservar os ganhos salariais, e aos supermercados,
para fazer estoque de gêneros essenciais. Ainda assim, foi preciso enfrentar as
resistências às mudanças por parte da oposição e até mesmo de aliados do
governo.
A redução da inflação a níveis civilizados assegurou uma melhoria geral
nos ganhos, permitindo aos consumidores programar melhor o seu futuro, com a
volta do crédito de longo prazo, agora sem a ameaça de sobressaltos
financeiros. Ainda assim, a inflação em torno de 6% ao ano continua elevada
demais para uma economia estabilizada e só não é maior porque algumas tarifas
estão represadas. E a taxa de juros, mesmo tendo despencado depois de debelada
a hiperinflação, encontra-se em patamares inaceitáveis.
Depois de transformar o Real numa conquista dos brasileiros, o país
precisa assegurar agora taxas menores de inflação e de juros, o que vai
depender de mais reformas estruturais. As mudanças, que são pressuposto para o
crescimento, só ocorrerão se os políticos se sentirem pressionados a aprová-las
pela sociedade.

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