Cristianização
MIGUEL
REALE JÚNIOR
O
ESTADO DE S. PAULO - 05/07
As múltiplas composições
eleitorais só podem deixar perplexo o eleitor, que se surpreende com junções
nunca dantes imaginadas, contestadas mesmo por seus atores até a undécima hora,
ou defecções que contrariam neste ou naquele Estado a linha adotada pelo
partido no plano nacional.
Assustadoramente, em bom
estilo do PCC, político comandou de dentro do presídio o caminho a ser seguido
por seu partido, o PR, impondo à presidente da República a destituição de um
seu ministro, que cometera o pecado mortal de não atender parlamentares da
sigla. Feita a vontade do mensaleiro, o PR decidiu apoiar oficialmente a
reeleição da presidente. Esse fato demonstra o terreno pantanoso em que se
arrima a nossa democracia.
De outra parte, há
imperativos de ordem pessoal ou busca de sintonia com o eleitorado, cuja
tendência orienta os candidatos a deputado e a governador, que se sobrepõem aos
compromissos oficiais firmados pelos partidos. A história de nossa vida
política bem revela como essas preferências pessoais e de conveniência
eleitoral pesam muito mais do que a adoção de uma candidatura em convenção
nacional do partido.
Em 1950 Getúlio Vargas,
candidato dos trabalhadores pelo PTB, recebeu o apoio concreto do PSD, partido
de centro-direita, que abandonou no correr da disputa o seu candidato a
presidente, Cristiano Machado, orientando firmemente a vontade eleitoral em
favor do antigo ditador. Nasce daí o termo "cristianização", que
significa a crucificação de um candidato por seus correligionários.
Em janeiro de 1985 Paulo
Maluf foi derrotado no colégio eleitoral, apesar de ser o candidato (a
presidente da República) do partido majoritário, base política do regime
militar, o PDS, sucessor da Arena, em vista de defecções em favor do candidato
do partido de oposição à ditadura, o PMDB. Tancredo Neves, na eleição indireta
então existente, no mesmo colégio eleitoral, órgão composto por parlamentares
federais e representantes de Assembleias Legislativas, ganhou com os votos do partido
adversário, inclusive tendo por candidato a vice um recém-egresso da
presidência do PDS, o sempre presente José Sarney.
Chegou-se a discutir, à
época, se caberia ao PDS fixar como questão fechada, a ser seguida por seus
membros, o voto obrigatório no candidato do partido na eleição pelo colégio
eleitoral, sob pena de, em caso de desrespeito, exclusão da legenda, por
infidelidade. Ponderou-se, então, que questão fechada apenas teria lugar no
Congresso Nacional, e não no colégio eleitoral. Era uma importante
questiúncula, que foi básica para Paulo Maluf ser cristianizado. A consagração
de Maluf na convenção como candidato do seu partido a presidente não resistiu
aos ares da redemocratização.
Malgrado ter, em convenção
nacional, reafirmado o apoio oficial à reeleição da presidente Dilma Rousseff e
ocupar na chapa o cargo de vice-presidente, em vários Estados, especialmente do
Nordeste, o PMDB vai cristianizando a sua candidata. Como explicar tal
fenômeno?
Primeiramente, é fato
notório não ter existido de 1946 a esta parte vida partidária consistente na
política brasileira. Em 1965, após o golpe, ainda permaneciam existindo 13
partidos que haviam, nos anos 60, começado a consolidar-se, tais como o PSD, o
PTB, a UDN, o PSP, o PDC, quando o Ato Institucional n.º 2 os dissolveu,
formando forçosamente dois partidos, Arena e MDB.
A reunião imposta de
diversas linhas dentro de um mesmo partido não resistiu à realidade,
criando-se, então, o subterfúgio das sublegendas. As conveniências pessoais
ditaram o surgimento de partidos dentro dos partidos.
Além da falta de tradição
partidária, é necessário reconhecer formarem-se as opções eleitorais em vista
de idiossincrasias e disputas locais, constituindo estas imperativos
enfraquecedores das orientações emanadas pela cúpula. Assim, o PMDB começou o
processo de "cristianização" de Dilma. Seja porque os ventos apontam
no sentido contrário à sua candidatura, cuja rejeição não se limita à elite
branca, como no primeiro momento o guru Lula explorara, seja por dificuldades de
convivência ou mesmo conflitos entre as siglas PT e PMDB em muitos municípios
cujos líderes políticos, prefeitos e deputados, no dia a dia vão propagar apoio
a candidatos de oposição.
Essa é a situação no Rio de
Janeiro, onde o candidato do PMDB ao governo chegou a dizer que seu palanque
abrigaria Dilma, Aécio Neves e o pastor Everaldo. Cobrado por Gilberto
Carvalho, Pezão voltou atrás ao declarar apoio a Dilma. Prevalecerá, contudo, o
Aezão, união entre Aécio e Pezão, pois assim vão agir, como se noticia,
prefeitos e deputados.
No Ceará o PMDB, com seu
candidato ao governo, Eunício de Oliveira, firmou acordo com o PSDB e compôs,
conjuntamente com o DEM, chapa única para governador, vice e senador. O
palanque do PMDB no Ceará será de Aécio. O mesmo sucederá na Bahia, em coligação
na qual o candidato ao governo será do DEM, o vice, do PSDB e ao Senado, do
PMDB, com palanque aberto para Aécio.
O que sucede com o PMDB
ocorre igualmente com o PP, cuja Executiva, em reunião fechada, decidiu
consagrar apoio à candidatura de Dilma, mas essa posição foi fortemente
contestada na base partidária, especialmente nos Estados de Minas Gerais e Rio
Grande do Sul.
Destarte, o já conhecido
processo de cristianização só tende a aumentar graças a um conjunto de fatores:
a antipatia gerada pela figura presidencial; a marca da corrupção; os rumos
desfavoráveis da economia; as posições contrárias, por razões múltiplas, à
presidente em diversos Estados, pelos membros de partidos oficialmente
apoiadores da reeleição.
Resta esperar que os
candidatos da oposição não se limitem a usufruir a rejeição crescente à
presidente, pois devem trazer o alento de novos tempos com propostas concretas
de reorganização econômica e política, sem o que teremos mais do mesmo, sob
outra etiqueta.

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