As
preocupantes declarações de Joaquim Barbosa
EDITORIAL
O GLOBO
O
GLOBO - 03/07
O ex-presidente do STF
contribui para a defesa de indicações sérias de novos ministros ao denunciar a
interferência de interesses privados no tribunal
Bem ao seu estilo, o
ministro Joaquim Barbosa se despediu do Supremo Tribunal Federal sem cumprir o
protocolo. Para não ouvir os discursos de praxe de colegas e evitar qualquer
pronunciamento formal, Barbosa saiu antes de encerrada a sessão de terça-feira,
a sua última no STF. Agora, espera a publicação da aposentadoria no Diário
Oficial.
Mas já aproveitou os
primeiros momentos fora da Corte para, em entrevista, dar opiniões fortes sobre
a atuação de ministros. No julgamento do mensalão, de que foi relator, já
fizera acusações a alguns de seus pares de atuar com o objetivo de ajudar
condenados.
Terça, sem a toga, foi mais
explícito: “Aqui (STF) não é lugar para pessoas que chegam com vínculos a
determinados grupos. Não é lugar para privilegiar determinadas
orientações". E mais adiante: “(...) aquilo que falei da constante queda
de braço, da tentativa de utilização da jurisdição para fins partidários, de
fortalecimento de grupos, de certas corporações, isso é extremamente nocivo, em
primeiro lugar, à credibilidade do tribunal, e também à institucionalidade do
nosso país”.
Joaquim Barbosa tem razão, e
precisa, à primeira oportunidade, aprofundar este tema do uso do Supremo para
fins privados.
Quem acompanhou sessões do
julgamento percebeu em algumas manobras a defesa de interesses dos mensaleiros.
Por exemplo, na lentidão forçada dos trabalhos na primeira fase das sessões,
para que os ministros Cezar Peluso e Ayres Britto se aposentassem votando o
mínimo possível, por serem favoráveis à condenação dos acusados. Deu certo,
infelizmente.
A visão crítica de Joaquim
Barbosa não reduz a importância histórica do julgamento, nem seu êxito. Pode
ter havido frustrações, mas deve-se relembrar que nunca no Brasil políticos de
partidos no poder — ou mesmo fora dele — foram condenados e presos por
corrupção. Neste sentido, importa menos o rigor das penas, mas o ineditismo da
punição, essencial para o consolidação das instituições da democracia
representativa.
O mesmo aconteceu no
impeachment de Collor: o fato de ele não ter sido condenado pelo Supremo não
reduziu a contribuição do Congresso à estabilidade institucional.
Esta primeira entrevista de
Joaquim Barbosa fora do Pleno do STF tem a ver com os critérios de indicação de
candidatos a ministros ao Senado, prerrogativa da Presidência da República. A
própria escolha de seu sucessor será um teste para a presidente Dilma Rousseff,
caso ela decida fazê-la antes de apuradas as urnas de outubro.
Será muito ruim para as
instituições se Dilma, permeável a pressões de alas petistas radicais em função
do quadro eleitoral, fizer uma indicação inadequada ao Supremo, a última linha
de defesa do estado democrático de direito. Agravará as distorções mencionadas
por Barbosa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário