O fim de Tóis
JOAQUIM
FERREIRA DOS SANTOS
O
GLOBO - 14/07
Os
guerreiros de Tóis julgavam-se predestinados pelo sangue dos antepassados
É pau, é pedra, é o fim do
caminho da Civilização Tóis, aquela que os guerreiros do condado de Comary
inventaram para dominar o planeta futebol e para todo o sempre ser invencível.
Ela exigia de seus súditos o cumprimento em que a mão direita fazia o poste
enquanto o antebraço esquerdo servia de travessão, formando o T da palavra
mágica. “Pelos poderes de Tóis”, gritavam no meio das rodinhas antes das
batalhas — e se julgavam mais motivados.
Ninguém sabia onde queria
chegar àquela confraria de homens adolescentes, sempre caminhando em fila
indiana, as mãos nas costas do guerreiro que seguia na frente. O mundo adulto
ria, mas eles vinham de uma civilização na floresta onde o importante era ser
fofo. Foi assim que se conheceram no pátio escolar, meninos com alegria nas
pernas, e assim caminhariam, uma chuteira de cada cor, a barra da cueca à
mostra. Diziam-se uma família.
Os guerreiros de Tóis
julgavam-se predestinados pelo sangue vitorioso de seus antepassados e com
poderes suficientes para viver isolados na nova civilização de orgulho que
fundaram. João Gilberto sussurrou e criou a bossa nova. D. Pedro inventou um
país com o “Independência ou morte”. Agora, os canarinhos tropicais fundaram
Tóis, abaixo da fortaleza do Dedo de Deus. A rocha energizava seus pés, eles
acreditavam, ajoelhados contritos no meio do campo.
Durante um mês, estes 23
soldados furaram o nevoeiro da serra onde se aquartelavam e, como se fossem
entidades divinas surgindo em meio às brumas de Avalon, desciam à várzea para
enfrentar os fariseus que ousavam desafiá-los, eles, os autoproclamados reis
eternos do futebol mundial. Sentiam-se semideuses, falavam da magia do bigode
grosso e da união do grupo. Eram os valores do mundo Tóis. Zero de conversa
sobre futebol, pois já de tudo sabiam.
Os guerreiros de Tóis eram
os mais tatuados das guerras, todos rabiscados com a miríade de possibilidades
inventadas para se imprimir qualquer maluquice na pele de um ser humano.
Julgavam que isso seria tática terrível para assustar outras tribos. Pintavam-se
de caveiras, dragões, morcegos e hieróglifos. Um desses guerreiros, além da
cabeleira em volutas como a Hidra de Lerna, escreveu no braço “Não sou dono do
mundo, mas sou filho do dono” — e supunha agora carregar ali a arma mortal de
um para-choque de FNM. Morreria mais adiante, atropelado por um jogador alemão.
Antes das pugnas, os meninos
de Tóis faziam questão de cantar inteiro o hino de seu condado, num
impressionante festival de cenhos franzidos, gargantas arreganhadas e outros
exageros da espécie. Seus antepassados, vencedores em cinco torneios, nunca
souberam uma frase do tal hino, complicadíssimo. A encenação do canto a capela
não tinha nada a ver com o jogo, não marcava gols e deixava os guerreiros
emocionalmente exauridos. De onde estavam, no entanto, podiam ouvir o locutor
dizer: “Estamos todos arrepiados”. Achavam por isso que estavam com a mão na
taça.
Os guerreiros de Tóis
chegaram a levar para o campo de batalha a túnica de um soldado ausente, ferido
num combate anterior, numa tentativa mediúnica de incorporar as forças dele aos
sobreviventes. Achavam possível utilizar a túnica de pano como arma de guerra.
Vertiam lágrimas sob qualquer pretexto. Chorava mãe, chorava pai, chorava todo
mundo. O mais velho conversava com uma imagem de Nossa Senhora de Caravaggio.
Definitivamente, o ar
rarefeito da montanha onde viviam isolados começava a lhes fazer mal. Gol, só
de canela. A qualquer contato com o próximo, caíam ao chão, contorcendo-se em
dores invisíveis ao mais detalhista dos raios x.
As ordens com que
administravam os combates vinham de um velho pajé, gordo de tanto anunciar
lasanha na TV. Sua tática era sempre a mesma: “Atacar com motivação, defender
com autoajuda”. Ele agora tinha como truque principal a capacidade de se
transformar em sósias e espalhar a confusão. Ninguém sabia afirmar com certeza
quem era quem, mas diante de algum comentário mais lúcido costumava-se creditar
as palavras ao sósia. Na Civilização Tóis todo mundo achou a multiplicação do
técnico como uma versão moderna da multiplicação dos pães, o sinal metafísico
de que a guerra, ao findar do sétimo passo, estaria ganha.
Os guerreiros de Tóis se
achavam acima do bem, do mal e também por cima da carne-seca, o alimento da
infância que agora havia sido trocado pelas marmitas mandadas trazer da
Espanha, do novo restaurante do chef Ferran Adrià. Alguns pintavam o cabelo
todo dia, mas nunca acertavam o corte. A guerra do futebol passou a ser apenas
um detalhe, algo transmitido no telão onde avaliavam como lhes ia a beleza.
Não treinavam. Tinham a
força, a espada de Grayskull, o grito de Shazan, o apito do japonês, o licor de
jurubeba e o pó de pirlimpimpim. Na hora agá, resolveriam. Tóis era a reunião
de todos os poderes mais aqueles que os marmanjos adolescentes tinham visto nos
videogames da caserna na serra — e, dedicados a se curtirem e se compartilharem
nas redes sociais, nem perceberam o bicho vindo pelo meio de campo desocupado.
Foram sete dentadas na vaidade, na preguiça, na ignorância e nos pescoços onde
estava tatuado “Tudo passa”.
Nada passa, tudo fica — e
fez-se o apagão eterno em Comary.
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