Não se meta, Dilma!
RICARDO
NOBLAT
O
GLOBO - 11/08
O que essa gente do governo
Dilma Rousseff, ela incluída, imagina mesmo que somos? Um bando de idiotas? Ou
de ignorantes? Incapazes de distinguir entre o falso e o verdadeiro? Vai ver
parecemos dispostos a ser enganados desde que não nos apertem os bolsos. Nem
revoguem direitos e benefícios obtidos a duras penas. Ou que nos foram
concedidos em troca de votos. Pois é... Os aloprados estão de volta!
PERDÃO. OS ALOPRADOS não
estão de volta. Estão de volta aqueles que a cada eleição tentam por meios
escusos influenciar seus resultados. Lula chamou de aloprados os membros de sua
campanha à reeleição que montaram um falso dossiê para enlamear a imagem dos
candidatos do PSDB a presidente da República (Geraldo Alckmin) e ao governo de
São Paulo (José Serra).
ALOPRADO É SOMENTE um tipo
inquieto. Ou amalucado. Na época, ninguém contestou o uso impróprio do inocente
adjetivo para identificar, de fato, manipuladores da vontade popular. Sinto
muito, mas era disso que se tratava. Agora será diferente? Como qualificar os
que agiram para transformar a CPI da Petrobras numa despudorada farsa? Uma CPI
que poderia afetar o resultado da próxima eleição presidencial?
ALI HAVIA UM GRAVE malfeito
a ser investigado capaz de alcançar Dilma a poucos meses da sua sucessão. A
Petrobras fez um dos piores negócios de sua vida ao comprar a refinaria de
Pasadena, nos Estados Unidos. O negócio foi aprovado pelo Conselho de
Administração da companhia presidido por Dilma. Respondam com franqueza: o que
foi feito da gestora tida por Lula como exemplar?
DILMA ALEGOU que se baseara
num parecer técnico "falho" quando avalizou a compra da refinaria. E
que o autor do parecer já fora demitido da diretoria da Petrobras.
Descobriu-se, afinal, que o demitido, assim como a atual presidente da companhia,
receberam de véspera as perguntas que lhe seriam feitas por senadores do
governo escalados para integrar a CPI. Uma ação entre amigos. Ou melhor: um
crime!
SOB PRESSÃO DO GOVERNO, o
Tribunal de Contas da União (TCU) retirou o nome de Dilma da lista dos
eventuais culpados pelo prejuízo de US 792,3 milhões contabilizados pela
Petrobras. Deixou de fora da lista o nome da presidente da Petrobras, Graça
Foster. E por fim adiou o julgamento do caso. Graça não poderia dispor de
melhor advogado de defesa - Dilma, que a nomeou para o cargo.
LEMBRAM-SE DA VEZ que Lula
se referiu a Sarney como "um homem incomum?" Foi a maneira que achou
para socorrer o fiel aliado, suspeito de alguma tramoia. Graça é "uma
mulher incomum", sugeriu Dilma. Que decretou: "Nós não achamos que
pese contra ela qualquer processo de irregularidade".Nem contra o marido
de Graça, prestador de serviços à Petrobras.
SERIA MAIS RAZOÁVEL que
Dilma correspondesse ao que se espera de quem ocupa o cargo mais importante da
República, deixando o TCU livre para decidir se lançará o nome de Graça no rol
dos responsáveis pelo negócio de Pasadena. Ninguém pediu a opinião dela sobre
Graça. Não interessa ao tribunal - e não deve interessar - o que pensa Dilma de
sua amiga de fé, irmã, camarada.
O PODER COSTUMA cegar quem o
exerce. Embora carente de talento para estar onde foi posta por Lula, Dilma
entende que merece se reeleger porque fez um governo estupendo, inesquecível.
Por certo, inesquecível, sim... De resto, é tamanha a fraqueza dos seus
adversários que ela tem tudo para se reeleger. Se os fados ajudarem, no
primeiro turno.
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