Sabotagem e difamação
EDITORIAL
ZERO HORA
ZERO
HORA - 09/08
O governo deve ser o
primeiro interessado a agir com rapidez, sem desculpas protelatórias, no
sentido de esclarecer a infiltração de informações contra jornalistas na
enciclopédia livre Wikipédia. A manipulação do site, com dados desabonadores e
incorretos, teve origem na rede de computadores do Palácio do Planalto. O fato
de que as informações foram acrescentadas por alguém em atividade no poder
central agrava a atitude de quem se preocupou em atingir dois comentaristas
econômicos independentes. Nos dois casos, os currículos dos atingidos receberam
comentários sem conexão com a realidade, atribuindo aos jornalistas análises
que nenhum deles produziu. O que está implícito na ação é a tentativa de atacar
quem, por suas abordagens descompromissadas com os interesses do governo, é
considerado inimigo dos governistas.
O jornalismo tem como bem
maior a preservação da sua reputação. Os dois alvos, Míriam Leitão, colunista
do Globo, e Carlos Alberto Sardenberg, da CBN e da Rede Globo, construíram
carreiras respeitadas pela credibilidade e qualidade de suas informações.
Ambos, assim como muitos outros profissionais da imprensa, são eventualmente
atacados pelos que tentam desqualificar não só seus trabalhos, mas a capacidade
de refletir sobre a realidade brasileira sem vínculos com o poder ou quaisquer
outros interesses. As acusações acrescentadas aos seus currículos são
denunciadoras do caráter de seus autores. São empobrecedoras como atitude
crítica.
As reações de entidades do
setor, como a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Associação
Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), marcam uma posição firme
diante do ocorrido, para que o episódio não seja esquecido em pouco tempo. É
oportuna também a manifestação do procurador-geral da República, Rodrigo Janot,
no sentido de indicar que cabe ao Ministério Público do Distrito Federal a
investigação do caso. O delito mais visível é o do uso de equipamentos do
serviço estatal para atacar pessoas, em especial críticos do governo. Trata-se,
numa avaliação imediata, de ato a ser enquadrado em infração disciplinar grave.
Mas o ocorrido é mais do que
uma afronta a normas administrativas. Trata-se de uma agressão a princípios
básicos da ética e da moralidade na atividade pública. O governo tem a
obrigação de determinar a identificação dos responsáveis pela manipulação da
enciclopédia, diante das provas de uso da rede de internet do Planalto. A
liberdade de expressão, assegurada pela Constituição, somente será plenamente
exercida se todos se submeterem às consequências de seus atos. As estruturas de
governo, a serviço do bem comum, não podem ser desfrutadas impunemente por
difamadores.
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