A falência bolivariana
KÁTIA
ABREU
FOLHA
DE SP - 16/08
O
Brasil está atado, no Mercosul, a países que estão se precipitando rumo ao
abismo 'socialista'.
Para quem tinha ainda alguma
fantasia sobre a ressurgência do comunismo em nosso tempo, travestido de
"socialismo do século 21", a frustração não poderia ser mais
completa.
O peso da realidade mais uma
vez se impôs, como se pessoas e partidos políticos nada tivessem aprendido com
as experiências soviética, do Leste Europeu, da China maoista e de outros
países. A fantasia tornou-se o fantasma que assombra a América Latina e,
infelizmente, certos partidos políticos entre nós.
Cuba, farol dessa esquerda
retrógrada, é um país empobrecido que, em seus melhores momentos, viveu somente
da mesada da ex-União Soviética. Posteriormente, sua mesada foi substituída
pelo petróleo barato enviado pelo ex-ditador Hugo Chávez.
A falência econômica é
manifesta, sendo acompanhada por uma feroz ditadura que nada concede em termos
de liberdade de expressão, imprensa e circulação. Os direitos humanos são sistematicamente pisoteados nessa ilha,
tornada uma prisão. Não deixa de surpreender que atraia, ainda, adeptos em
nosso país. A única explicação residiria no atraso ideológico das agremiações
brasileiras de esquerda.
A Venezuela inovou em seu
socialismo. Em vez da conquista violenta do poder, optou por eleições que têm
como único objetivo subverter a democracia por meios democráticos. Conseguiu,
dessa maneira, captar a simpatia dos comunistas/socialistas brasileiros, em
falta de ideias e orientação.
De resto, está seguindo a
cartilha cubana e "socialista" em geral. O resultado salta à vista. A
liberdade de imprensa está sendo sistematicamente aniquilada, a oposição é
violentamente perseguida e adversários políticos são considerados inimigos a
serem encarcerados.
O Poder Judiciário torna-se
uma pantomina a serviço do Poder Executivo. A economia está em frangalhos. A
desorganização produtiva é total. Falta até papel higiênico. Só uma expressão
pode nomear o que está ocorrendo: falência completa.
A Argentina, em sua muito
especial mescla de peronismo e bolivarianismo, está levando o populismo
econômico a seu grau máximo de radicalização, acompanhado de severas restrições
à liberdade de imprensa e dos meios de comunicação em geral.
De grande parceiro
econômico, tornou-se um empecilho à própria expansão da economia brasileira.
Atualmente, o país encontra-se novamente em situação de calote, depois de uma
negociação forçada de um calote anterior. Ou seja, fundos e credores que não
seguiram essa imposição autoritária tiveram, agora, ganho de causa em um
tribunal americano.
Se a situação argentina já
era ruim, ficou ainda pior. Não é a retórica populista que tirará nosso vizinho
do poço.
Ocorre, contudo, que esses
vizinhos são membros do Mercosul e nossos parceiros em qualquer negociação
bilateral que o Brasil faça ou planeje fazer. O Brasil está atado a países que
estão se precipitando rumo ao abismo "socialista".
O comércio, que deveria ser
o eixo-mor dessa associação, tornou-se completamente secundário, como se não
fosse ele o seu objetivo central. As reuniões do Mercosul converteram-se em
simples fóruns inúteis, palcos de agressivos discursos anti-economia de mercado
ou anti-Estados Unidos, segundo a cartilha anti-imperialista.
O foco econômico é, hoje,
político, sobretudo voltado para a defesa das posições argentinas e
venezuelanas, conforme os delírios ideológicos que lhes são característicos.
Não é mais possível o país
atrelar o seu futuro a um Mercosul populista, pois teremos apenas o fracasso
coletivo daquilo que já é a falência individual desses países.
Urge que o(a) próximo(a)
presidente da República reveja as orientações que têm presidido a nossa
política externa. Entre elas, impõe-se que essa entidade volte a ser um mercado
comum, comercial, e não uma associação aduaneira.
Se nem para o comércio serve
plenamente, dadas as restrições existentes em nossos vizinhos, como esses
Estados podem agir como um bloco? Não estaremos substituindo a realidade pela
ficção ideológica?
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