A perigosa constituinte do PT
BERNARDO
SANTORO
GAZETA
DO POVO - PR - 28/10
A presidente Dilma anunciou,
no seu discurso da vitória, que a reforma política será a grande prioridade do
seu novo mandato. A necessidade de uma reforma política é quase uma
unanimidade, especialmente em virtude dos altíssimos custos de campanha, do sistema
de financiamento dessas campanhas, do excesso de partidos e da falta de
conteúdo ideológico dos mesmos. O problema está na forma e no conteúdo da
reforma política que está sendo desenhada pelo PT.
Quanto à forma, o PT
argumenta ser necessária uma “mini-Assembleia Constituinte” para produzir os
efeitos necessários, com sua decisão de instalação a cargo de um plebiscito.
Isso é uma completa falácia. A Constituição brasileira é bastante flexível
quanto à sua organização política, e o sistema político-eleitoral pode ser
reformado por emenda constitucional sem maiores problemas. Só haveria
necessidade de uma Assembleia Constituinte caso o PT quisesse acabar com alguma
das cláusulas pétreas da Constituição, que são a forma federativa de Estado; o
voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos poderes; e os
direitos e garantias individuais. Uma reforma política que acabasse com
qualquer um desses direitos e garantias seria necessariamente uma reforma de
cunho ditatorial.
No conteúdo, o PT pretende
acabar com o financiamento privado de campanhas por empresas, criar cláusula de
barreira, adotar lista fechada de candidatos com cotas para mulheres e negros e
a criação de comitês populares. O financiamento privado de campanhas é um
problema, pois as grandes empresas nacionais investem em candidaturas para
exigir favores e contratos públicos posteriormente. A atual legislação é
bastante restritiva, sendo essa burocracia a criadora do famoso “caixa dois”,
ou, no dizer do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, “recursos não
contabilizados”. O financiamento público exclusivo não resolveria esse
problema, pois as doações privadas continuariam existindo, só que agora
totalmente irregulares, com 100% de doações em “caixa dois”, sem contar que os
partidos maiores receberiam mais recursos, criando eleições injustas. Além
disso, seria muito triste ver recursos que deveriam ser destinados para
educação, saúde e segurança pública indo parar nas campanhas de políticos com
cujas ideias não concordamos.
A cláusula de barreira
restringe a pluralidade democrática e só é necessária porque hoje existe Fundo
Partidário e tempo de tevê gratuito. Por que não atacar a raiz do problema,
acabando com esse desvio legalizado de recursos públicos para políticos?
A proposta de lista fechada
defendida pelo PT retira do eleitor o direito de escolher seu representante e o
entrega para o diretório do partido votado. Se esse mecanismo já não fosse
antidemocrático por natureza, criar cotas sexuais e raciais para esse fim
gerará a total alienação do cidadão brasileiro do processo eleitoral. A nossa
representação deve ser escolhida pelo povo de maneira livre, e não por
políticos profissionais. A criação de comitês populares, já vislumbrada pelo
Decreto 8.243/14, retira competência dos representantes democraticamente
eleitos pelo povo e a entrega para militantes profissionais e grupos de
interesse que não receberam nenhum voto de ninguém.
Tudo exposto, com todos os
seus graves problemas, pelo menos o atual sistema é democrático, o que não se
pode dizer da proposta petista. Se é para mudar assim, melhor ficar com o velho.
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