Fim de linha
MERVAL
PEREIRA
O
GLOBO - 15/11
O escândalo maiúsculo da
Petrobras vai bater diretamente na política, porque essas empreiteiras
incriminadas e esses executivos ora presos estavam ligados umbilicalmente a
políticos, e foram colocados lá cada um com seu cada qual, isto é, diretores
indicados diretamente por partidos políticos como PT, PP e PMDB.
Por isso mesmo, vai mexer
com a estrutura da política brasileira, é um marco que se espera final neste
processo político do jeito que está sendo tocado. Chegamos ao fim da linha, não
é possível mais. Prejudica a maior estatal brasileira, prejudica o país
economicamente e também sua imagem de nação civilizada e moderna, e prejudica a
política. É inviável continuarmos nesse processo destrutivo.
O esquema é fundamentalmente
de financiamento político, montado no Palácio do Planalto a exemplo do
mensalão, para financiar a base congressual governista, e vai bater no
ex-presidente Lula e na presidente Dilma, que domina a área de Minas e Energia
desde quando era ministra, no primeiro governo petista.
É claro que alguém coordenou
esse trabalho, alguém sabia o que estava acontecendo. Muito difícil imaginar
que no Palácio do Planalto ninguém soubesse. No processo do mensalão, já havia
uma grande desconfiança de que era impossível um esquema daquele tipo sem um
alto grau de comando.
Caiu em cima do então
ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, como o último da linha de comando,
por falta de condições políticas de chegar mais acima na escala de poder, mas
desta vez é complicado dizer que Lula e Dilma nada sabiam. O doleiro Alberto
Youssef já disse em depoimento da delação premiada que os dois sabiam, e a
situação está incontrolável.
Como chefe da Casa Civil,
Dilma presidiu o Conselho de Administração da Petrobras. Em janeiro de 2010,
conforme lembrou ontem, no editorial "Lula e Dilma sempre souberam",
o jornal "O Estado de S. Paulo", Lula vetou os dispositivos da lei
orçamentária aprovada pelo Congresso que bloqueavam o pagamento de despesas de
contratos da Petrobras consideradas superfaturadas pelo Tribunal de Contas da
União (TCU).
Aliás, desde 2008 o
Fiscobras, relatório consolidado do TCU com as auditorias feitas em obras que
recebem recursos federais, chamava a atenção para os desmandos na construção da
refinaria Abreu e Lima em PE, um projeto em sociedade com o governo venezuelano
com Chávez ainda vivo, e que acabou sendo assumido integralmente pelo governo
brasileiro. O custo total orçado inicialmente em pouco mais de R$ 2 bilhões já
atingiu R$ 41 bilhões.
Mais impressionante que a
abrangência do escândalo da Petrobras é que os corruptores estão sendo presos.
O rombo nas contas públicas é fora do padrão, pode envolver R$ 10 bilhões, mas
o que está fora dos padrões mesmo, um ponto fora da curva no bom sentido, é a
prisão dos corruptores. E a situação ainda vai piorar para o governo e o
esquema petista na corrupção.
Em pouco tempo, a lista de
políticos envolvidos, deputados, senadores, governadores e ex-governadores
estará sendo divulgada. Um dia republicano, sentenciou um promotor envolvido na
operação. Os agentes da Justiça envolvidos na investigação do que está sendo
conhecido como petrolão, aliás, estão sofrendo pressões de toda sorte.
Alguns delegados, por
exemplo, usaram durante a campanha uma rede fechada do Facebook para externarem
posições políticas pessoais de críticas ao governo e apoio ao candidato de
oposição Aécio Neves, e isso está sendo tratado como prova de que as
investigações têm viés político. O ministro da Justiça mandou até mesmo abrir
investigação sobre o caso.
Os procuradores do Ministério
Público que atuam no caso saíram em defesa dos delegados, afirmando em nota que
a expressão de pensamento pessoal em ambiente fechado é direito constitucional,
e não indica que a investigação tenha sido desvirtuada. O juiz Sérgio Moro,
responsável pela investigação, aproveitou o despacho em que aprovou as prisões
de ontem para defender a atuação da Polícia Federal e do Ministério Público
Federal na condução da investigação.
E também respondeu
indiretamente à acusação de que os investigados teriam sido coagidos a assinar
os acordos de delação premiada. "A prova mais relevante é a documental. Os
depósitos milionários efetuados pelas empreiteiras nas contas controladas por
Youssef constituem prova documental, preexistente às colaborações premiadas, e
não estão sujeitas a qualquer manipulação".
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