Um balanço de fiascos, de devastação e de lorotas
ROLF
KUNTZ
O
ESTADO DE S.PAULO - 14/12
Saqueada, humilhada,
processada no exterior sob acusação de mentir aos investidores, desvalorizada
nas bolsas e com problemas para anunciar um balanço sem o aval de uma
auditoria, a maior empresa brasileira, a Petrobrás, é hoje o símbolo mais
expressivo de uma economia devastada por uma combinação de incompetência,
ilimitada fome de poder e desprezo pelas metas e normas prosaicas da
administração pública. Os danos podem variar de um para outro setor, mas a
devastação foi um processo único, determinado por um mesmo estilo de política.
Nas últimas semanas, enquanto avançavam as investigações da Operação Lava Jato,
o governo tentava mudar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para se livrar
da obrigação de apresentar o resultado fiscal prometido para 2014. Incapaz de
cumprir a lei, tratou de alterá-la, para acomodar os efeitos da gastança, dos
benefícios tributários mal planejados e da estagnação econômica produzida pelos
seus erros.
Os danos impostos ao País
vão muito além dos bilhões pilhados da Petrobrás. Depois de quatro anos no
atoleiro, com crescimento médio anual inferior a 2%, a economia brasileira vai
mal na geração de empregos, na produção industrial, no investimento, nos
preços, no comércio externo e nas contas públicas. A presidente Dilma Rousseff e
seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, costumam alardear a criação de postos
de trabalho. O emprego no Brasil, segundo dizem, foi preservado por políticas
anticíclicas e a desocupação é muito menor que nas economias avançadas. Deve
haver quem acredite, mas essa é mais uma história muito mal contada.
O desemprego é maior no
Brasil do que em muitos países mais afetados pela crise global. Os desocupados
em todo o País eram 6,8% da força de trabalho, no terceiro trimestre, segundo
levantamento mais amplo, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua
(Pnad), realizada em cerca de 3.500 municípios. Os números mais citados pelo
governo, bem mais baixos, são pesquisados só nas seis maiores áreas
metropolitanas.
Pelo número da Pnad, o
desemprego no Brasil, no terceiro trimestre, foi maior que em 16 dos 34
países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE) - mas essa comparação só vale se ficar limitada àqueles com dados
disponíveis para o período. No caso de quatro associados só havia, até a
publicação da tabela, informações até o segundo trimestre. Dois desses países
tinham taxas de desemprego bem menores que a do Brasil - Suíça, 4,4%, e Reino
Unido, 6,3%. A situação dificilmente deve ter mudado de forma significativa nos
meses seguintes. Se isso for levado em conta, a lista cresce para 18.
Tinham desemprego menor que
o do Brasil, no trimestre passado, cinco das maiores potências integrantes da
OCDE - Estados Unidos (6,1%), Japão (3,6%), Alemanha (5%), Coreia do Sul (3,5%)
e México (5%). O Reino Unido provavelmente poderia entrar na relação. Além
disso, a média das taxas das sete maiores economias capitalistas era 6,4%.
Todos esses países têm inflação mais baixa que a brasileira e quase todos devem
fechar o ano com crescimento econômico maior que o do Brasil.
A história do desemprego
baixo é, portanto, apenas mais uma lorota de um governo pouco habituado a
reconhecer os fatos - pelo menos publicamente. Mas a história fica pior quando
se leva em conta a qualidade dos postos de trabalho. A maior parte dos bons
empregos é gerada pela indústria, mas o setor tem demitido.
De janeiro a outubro o
número de ocupados foi 3% menor que o do mesmo período de 2013. Em 12 meses
diminuiu 2,8%. Em 2011, primeiro ano do atual governo, o pessoal assalariado na
indústria aumentou 1%, mas diminuiu 1,4% em 2012 e 1,1% em 2013 e continuou
encolhendo neste ano. A maior parte dos novos postos de trabalho tem sido
aberta em serviços, quase sempre em segmentos de baixa produtividade. Isso
combina com o fraco desempenho da economia e, de modo especial, com o
enfraquecimento da indústria, especialmente de transformação.
De janeiro a outubro deste
ano a produção industrial foi 3% menor que nos meses correspondentes de 2013. A
da indústria de máquinas e equipamentos, 8,8% inferior à de um ano antes.
Também isso se encaixa no quadro de estagnação econômica, mas o dado, nesse
caso, é particularmente agourento. Com baixo dispêndio em bens de capital, a
economia tem escasso potencial de expansão nos anos seguintes.
A insistência na conversa a
respeito de política anticíclica mostra apenas um erro de diagnóstico. Certos
estímulos podem ter sido necessários entre o final de 2008 e a maior parte de
2009, mas, passada a recessão, seria preciso cuidar das bases para a expansão
de longo prazo. Não houve nada parecido com isso. O Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC) foi até agora principalmente um plano imobiliário. Segundo o
último balanço, as ações do PAC-2 concluídas até dezembro deverão corresponder
a dispêndios de R$ 796,4 bilhões. Financiamentos e obras habitacionais deverão
somar R$ 449,7 bilhões, 56,46% do total. O setor de transportes, com apenas R$
66,9 bilhões, corresponderá a 8,4% do valor das ações terminadas.
Enquanto o governo insiste
em vender fantasias ao público, a equipe escalada para assumir a política
econômica a partir de janeiro procura meios de arranjar as contas públicas.
Haverá cortes de gastos e aumento de tributos e já se especula sobre um ajuste
na faixa de R$ 90 bilhões a R$ 100 bilhões. A arrumação terá de ser muito dura,
até porque o rombo fiscal é um dos maiores do mundo. Nos 12 meses até outubro,
o déficit nominal de todos os níveis de governo chegou a 5,01% do PIB e ficou
bem acima da média estimada neste ano para a OCDE (3,9%) e para a maior parte
dos seus associados. Passados quatro anos, a presidente só tem para dividir com
seu pessoal um saco de fiascos, estragos e lorotas.

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