A
vaca foi para o brejo?
Marta
Suplicy
Folha
de São Paulo 06/03
É um privilégio neste
momento crítico da política brasileira voltar a este espaço que ocupei em 2011
e 2012. Já colaborei na Folha, em cadernos e anos diversos, exercendo atividade
diferente da que tenho hoje. Tenho consciência da importância que foi chegar a
milhares de pessoas quebrando tabus, defendendo os direitos do povo, das
mulheres e minorias, avançando em temas de difícil aceitação. Senadora, e com
uma visão muito crítica da situação política brasileira, sinto-me no dever de
exercer neste espaço a audácia e transparência que caracterizaram minha vida.
Em política existem duas
coisas que levam a vaca para o atoleiro: a negação da realidade e trabalhar com
a estratégia errada.
O governo recém-empossado
conseguiu unir as duas condições. A primeira, a negação das responsabilidades
quando a realidade se evidencia. A segunda, consequência da mentira, desemboca
na estratégia equivocada. Estas condições traduzem o que está acontecendo com o
governo e o PT.
O começo foi bem antes da
campanha eleitoral deslanchar. Percebiam-se os desacertos da política
econômica. Lula bradava por correções. Do Palácio, ouvidos moucos. Era visto
como um movimento de fortalecimento para a candidatura do ex-presidente já em
2014. E Lula se afasta. Ou é afastado. A história um dia explicará as razões. O
ex-presidente só retorna quando a eleição passa a correr risco.
Afunda-se o país e a reeleição
navega num mar de inverdades, propaganda enganosa cobrindo uma realidade
econômica tenebrosa, desconhecida pela maioria da população.
Posse. Espera-se uma
transparência que, enquanto constrangedora e vergonhosa, poderia pavimentar o
caminho da necessária credibilidade.
Ao contrário, em vez de um
discurso de autocrítica, a nação é brindada com mais um discurso de campanha.
Parece brincadeira. Mas não é. E tem início a estratégia que corrobora a tese
de que quando se pensa errado não importa o esforço, porque o resultado dá com
os "burros n'água".
Os brasileiros passam a ter
conhecimento dos desmandos na condução da Petrobras. O noticiário televisivo é
seguido pelo povo como uma novela, sem ser possível a digestão de tanta
roubalheira. Sistêmica! Por anos. A estratégia de culpar FHC (não tenho ideia
se começou no seu governo) não faz sentido, pois o tamanho do rombo atual faz
com que tudo pareça manobra diversionista. Recupera-se o discurso de que as
elites se organizam propagando mentiras porque querem privatizar a Petrobras.
Valha-me! O povo, e aí refiro-me a todas as classes sociais, está ficando muito
irritado com o desrespeito à sua inteligência. Daqui a pouco o lamentável
episódio ocorrido com Guido Mantega poderá se alastrar. Que triste.

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