O cara
ELIANE
CANTANHÊDE
O
ESTADÃO - 15/05
O amigo do LULA - Ricardo Pessoa
Para a Polícia Federal, tudo
o que sai do padrão tem relevância e é por isso que a ida do doleiro Alberto
Youssef ao Maranhão, em pessoa, com uma bolada, é como uma cereja no bolo da
Lava Jato. Ele sempre enviava representantes, ou “mulas”, para os demais locais,
mas fez questão de ir ele mesmo ao Maranhão e acabou preso justamente em São
Luís. Segundo a PF, “aí tem!”.
Mesmo com a delação
premiada, mesmo depois de tudo o que o doleiro já contou, mesmo depois de tudo
o que se sabe, ainda há muitas dúvidas nas apurações maranhenses e elas podem
ganhar um novo sabor, desta vez bem picante, com a novidade desta semana nas
investigações: o acordo do empreiteiro Ricardo Pessoa com a Procuradoria-Geral
da República.
Ele sabe das coisas
envolvendo o Maranhão e, rapidamente, mal chegou, já citou o nome de Edison
Lobão. Maranhense, Lobão foi ministro de Minas e Energia – pasta à qual a
Petrobrás é vinculada – e só chegou a esse cargo nobre pela íntima ligação com
o ex-presidente, ex-governador e ex-senador José Sarney.
Pessoa não é uma pessoa
qualquer, um réu entre tantos, um representante a mais de empreiteiras ou só um
delator no meio da multidão de delatores. Ele é “o cara”. E, por falar nisso, é
próximo amigo do ex-presidente Lula, com quem trocava bem mais do que
figurinhas e uns copos de cerveja. Na avaliação dos investigadores, Pessoa
conhece as entranhas do poder e é chamado pela força-tarefa da Lava Jato de
“chefe do clube”, ou seja, das empreiteiras que tiravam dos cofres da Petrobrás
para pôr nas contas de PT, PMDB, PP.
Pessoa está preso desde
novembro e agora anda do quarto para a sala e do banheiro para a cozinha de
casa com uma tornozeleira. Como PF e Ministério Público imaginavam e os
envolvidos temiam, não suportou a tensão psicológica nem a pressão familiar e
decidiu bater com a língua nos dentes. A República treme.
Não bastasse, Pessoa entrou
em pauta e em evidência num momento péssimo para a presidente Dilma Rousseff.
Não só porque ela está com a popularidade no chinelo, mas porque as votações do
ajuste fiscal estão na sua etapa mais delicada.
Dilma perdera todas até
abril, mas, bem ou mal, vinha vencendo as votações no Congresso em maio: ganhou
apertado, mas ganhou na decisão sobre a MP trabalhista; aprovou o nome de Luiz
Fachin na Comissão de Constituição e Justiça do Senado e teve um resultado
melhor ainda na votação da MP previdenciária na Câmara. Na trabalhista, 25
votos de diferença; na previdenciária, 99.
Mas alegria de pobre dura
pouco e alegria de governo fraco, menos ainda. Na mesma noite de quarta-feira,
a Câmara mudou o fator previdenciário. Se Lula nem teve tempo para digerir a
delação premiada do amigão Ricardo Pessoa na Lava Jato, Dilma nem pôde curtir a
vitória da MP. Ontem, ela foi a Pernambuco remoendo a nova derrota, enquanto Lula
e o vice e coordenador político Michel Temer toureavam a base aliada em
Brasília. Lula cuidava do Senado, particularmente do rebelde sem causa Renan
Calheiros. Temer assistia ao vivo e em cores a guerra interna do PT.
A questão agora é fazer duas
contas: a política, somando os infiéis, e a econômica, diminuindo a conta da
Previdência Social. O impacto é grande nos dois casos, mas a preocupação
imediata é política. Exemplos: no PT, 14 deputados votaram contra o seu próprio
governo e, no PDT (que reúne seu diretório hoje), não se vê mais um mísero voto
a favor.
A crise, portanto, continua
braba e, como tudo o que está ruim, ainda pode piorar. Principalmente se o
próprio PT bate de frente com a presidente e o governo pelo desgaste do fator
previdenciário. Se a mudança passar, Dilma terá duas opções: chorar sobre o
rombo da Previdência ou vetar uma decisão altamente popular do Congresso.
Tudo isso com Ricardo Pessoa
ameaçando o sono dos poderosos, inclusive do poderoso-mor: o patrono do governo
Dilma.

Nenhum comentário:
Postar um comentário