O QUE LULA NÃO TEM
Ricardo
Noblat
O
GLOBO - 21/09
Viver e muito perigoso. Mas
viver no limite da irresponsabilidade é muito mais. Há quem goste. Soa como um
desafio. Exemplo: quanto não deve excitar Lula a proximidade da sombra da Lava-
Jato? As informações reunidas pelo juiz Sérgio Moro comprometem Lula com o que
começou de fato a acontecer durante o seu segundo governo. Era preciso pagar
dívidas da campanha de 2006. A saída? Roubar a Petrobras.
LULA É UM sobrevivente
(cuidado com sobreviventes. Acham-se capazes de tudo). Sobreviveu à seca no
Nordeste, à miséria em São Paulo, aos riscos da vida sindical na ditadura de
64, e a três derrotas seguidas para presidente. O candidato antes favorável à
limitação do direito de propriedade privada, ao aborto e à estatização dos
bancos virou o Lulinha Paz e Amor e, afinal, elegeu-se.
UM DOS segredos do seu
sucesso: a falta de princípios. Poderia repetir a sério o que o comediante
norte-americano Groucho Marx afirmou fazendo graça: "Esses são meus
princípios. Mas se você não gosta deles, tenho outros". Lula por ele: "Sou
uma metamorfose ambulante" Lula por Hélio Bicudo, fundador do PT:
"Ele só está em busca de vantagem para ele e para sua família"
NA SEMANA PASSADA, Lula
reuniu-se com Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados. Pediu-lhe que
segurasse qualquer pedido de impeachment contra Dilma. Indecorosa atitude! Um
pedido de impeachment que respeite os preceitos legais deve ser mandado
adiante. O presidente da Câmara exorbitaria dos seus poderes se o retivesse.
SE SABE disso, Lula não se
importa. No seu primeiro governo, telefonou para José Viegas, ministro da
Defesa, intercedendo pelo advogado Roberto Teixeira. Havia morado de graça em
um apartamento dele em São Bernardo. Pediu a Viegas para facilitar a vida de
Teixeira, interessado nos espaços ocupados pela massa falida da Transbrasil em
aeroportos país afora. Um ótimo negócio.
A DELÚBIO SOARES,
ex-tesoureiro do PT condenado no caso do mensalão, Lula pedia para esconder
acesa a cigarrilha que fumava quando era alvo de fotógrafos. Ao senador que o
procurou em 2006 dizendo que Marcos Valério, operador do mensalão, queria
dinheiro para ficar calado, Lula limitou-se a perguntar: "Você procurou
Okamotto?" Paulo Okamotto, hoje, preside o Instituto Lula.
VALÉRIO JAMAIS abriu a boca.
Quando tentou, era tarde. Pegou 40 anos de cadeia. Lula escapou depois de se
dizer traído pelos mensaleiros e entregar a cabeça de José Dirceu. Nega-se a
admitir que o mensalão existiu. Mas pediu o voto de quatro ministros do Supremo
Tribunal Federal em favor dos mensaleiros. Um dos ministros: Gilmar Mendes.
O MESMO QUE assistiu, certa
vez, a uma cena inesquecível. Estava na antessala do gabinete de Lula, no
Palácio do Planalto, quando o viu sair acompanhado de José Sérgio Gabrielli,
então presidente da Petrobras. "Veja só, Gilmar. Um procurador da Fazenda,
no Rio, está chantageando a Petrobras", narrou Lula. "Eu falei pro
Gabrielli: Por que você não manda grampear ele?" Grampo é crime.
LULA NÃO VÊ nada demais em
ter informado ao Exército, ao completar 18 anos, que media dois centímetros a
mais do que media. Nem vê nada demais no fato do seu filho mais velho ter
enriquecido enquanto ele presidia o país. Lula considera natural ter
enriquecido prestando serviços a empresários, e de nessa condição aspirar a um
novo mandato de presidente. Ilegal não seria. Seria imoral.

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