Dilma –
Marketing x realidade
CARLOS ALBERTO DI
FRANCO
O ESTADÃO - 31/03
A imagem da presidente Dilma
Rousseff construída pelo publicitário João Santana tem dois pilares de
sustentação: ética e competência gerencial. Santana, apoiado em sua fina
sensibilidade marqueteira, captou as demandas da sociedade. Ninguém aguentava
mais a roubalheira que terminou na grande síntese da picaretagem: o mensalão.
Mas os brasileiros também queriam um país melhor administrado, alguém que fosse
capaz de dar respostas às demandas por educação, saúde, logística etc.
Vendeu-se, então, a imagem da gerentona. Dilma, ao contrário de Lula, seria uma
administradora focada, competente, exigente com os resultados da gestão
pública.
O marketing, apoiado em
fabulosos gastos de propaganda, continua firme. Mas a imagem real de Dilma
Rousseff começa a ruir como um castelo de cartas. O perfil ético da
administradora que combate “os malfeitos” já não se sustenta. O vale-tudo, o
pragmatismo para construir a reeleição, a irresponsabilidade na gestão da
economia, sempre subordinada aos interesses da campanha (basta pensar no uso
político da Petrobras e na postergação do aumento da conta de energia para
2015), pulverizou os apelos do marketing. Eu mesmo, amigo leitor, não obstante
minhas divergências ideológicas com a presidente da República, tinha alguma
expectativa com o seu governo. Hoje minha esperança é zero.
Mas o pior estava por vir. A
suposta competência de Dilma Rousseff foi engolida pelo lamentável episódio da
compra da refinaria em Pasadena. A imagem da administradora detalhista e
centralizadora simplesmente acabou. Dilma, então presidente do Conselho de
Administração da Petrobras, autorizou a empresa a comprar 50% da refinaria por
valor 8,5 vezes maior que o pago pela Astra, um ano antes, pela refinaria
inteira. Confrontada por documentos inéditos atestando o voto favorável, ela
admitiu, em nota da Presidência da República, que se baseara em um mero resumo
executivo, “técnica e juridicamente falho”, dos termos da transação. Executivos
da Petrobras disseram que Dilma e todo o Conselho de Administração tinham à
disposição, em 2006, o processo completo. Resumo da ópera: aprovou sem ler uma
transação que dilapidou o dinheiro público. Administração temerária é o mínimo
que se pode deduzir. Estarrecedor.
O ex-procurador-geral da
República Roberto Gurgel considera “extremamente grave” o caso em que a
Petrobras teve prejuízo bilionário. Se houver indícios de responsabilidade da
presidente Dilma no caso, ela deverá ser ouvida em Brasília pelo Ministério
Público. “A partir do momento em que surjam indícios do envolvimento de pessoa
com prerrogativa de foro, a investigação tem de ser deslocada para o
procurador-geral da República”, afirmou Gurgel em entrevista ao UOL.
A imprensa não pode admitir,
mais uma vez, que a técnica da submersão acabe por tirar o foco de um escândalo
de grandes proporções. É preciso empunhar o bisturi e lancetar o tumor da
irresponsabilidade com o dinheiro público. Chega! Boa parte do noticiário de
política, mesmo em ano eleitoral, não tem informação. Está dominado pelo
declaratório e ofuscado pelos lances do marketing político. Dilma Rousseff
continua sendo apenas uma embalagem. Mas seu verdadeiro conteúdo começa a
aparecer.
A programação eleitoral é,
quando muito, uma aproximação da verdadeira face dos candidatos. Tem muito
espetáculo e pouca informação. Só o jornalismo independente pode mostrar o verdadeiro
rosto dos candidatos. Sem maquiagem e sem efeitos especiais. Temos o dever de
fazê-lo.
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