“Refis” da sem-vergonhice
EDITORIAL
O ESTADÃO
O
ESTADO DE S.PAULO - 11/08
Senadores da República
querem instalar a possibilidade de parcelar multa por improbidade. Conforme
apurou reportagem do Estado (5/7), eles "trabalham para aprovar no
Congresso Nacional uma proposta de parcelamento de dívidas com a União para
beneficiar empresas e pessoas responsabilizadas pela aplicação irregular de
dinheiro federal e condenadas a devolver recursos aos cofres públicos. A medida
também abrange o pagamento de multas impostas em ações de improbidade
administrativa".
A estratégia adotada foi incluir
uma emenda na Medida Provisória (MP) 641, que dispõe sobre a comercialização de
energia elétrica, com o seguinte conteúdo: "poderão ser pagos ou
parcelados, em até 180 (cento e oitenta) meses (...) os débitos de qualquer
natureza administrados e cobrados pela Procuradoria-Geral da União". A
proposta da MP era permitir que a energia comprada pelas distribuidoras possa
ser entregue pelas geradoras no mesmo ano do contrato, e não apenas a partir do
ano subsequente. O conteúdo enxuto da MP - tem apenas um único artigo - não
impediu que senadores e deputados apresentassem 54 emendas ao projeto de lei de
conversão n.º 12.
O autor da emenda do
parcelamento é o senador Gim Argello (PTB), que ocupa como primeiro suplente a
cadeira de Joaquim Roriz (PMDB). Ambos são notórios políticos do Distrito
Federal (DF). Recentemente, Gim havia recebido apoio do governo federal para
ocupar uma vaga no Tribunal de Contas da União (TCU). Era parte da estratégia
do Palácio do Planalto para garantir o apoio do PTB à coligação da reeleição de
Dilma. Diante dos protestos da oposição e de técnicos do TCU, que recordaram
que o senador era alvo de processos por crimes contra a administração pública,
o próprio Gim desistiu de postular a vaga no TCU. Agora, é candidato a um novo
mandato parlamentar pelo Distrito Federal.
Gim Argello já havia
conseguido aprovar, no ano passado, uma emenda de sua autoria na MP 615,
instituindo novo prazo para adesão ao programa de parcelamento de dívidas
fiscais com a União. Agora, pretende criar o parcelamento de dívidas por
improbidade à União. Recentemente, o senador recebeu um prefeito de uma cidade
goiana, próxima ao DF, que tinha uma dívida de R$ 75 mil por "problemas
com um convênio". Esse caso explicita o valor político da emenda, que
busca favorecer especialmente prefeitos, que constituem a maioria dos homens
públicos envolvidos em processos por improbidade administrativa.
Não são poucos os casos que
receberiam o benefício do "Refis" de Gim Argello. A
Procuradoria-Geral da União propôs, entre 2009 e 2013, mais de 10 mil ações que
buscam a restituição aos cofres públicos. Estima-se que o valor desses
processos alcance a cifra de R$ 6,5 bilhões, sendo R$ 462 milhões relativos a
800 ações por improbidade administrativa.
Segundo a reportagem do Estado,
a proposta pegou de surpresa a própria Advocacia-Geral da União, que não
concorda com a possibilidade de um "Refis" para as dívidas cobradas
pela Procuradoria-Geral da União. Atualmente, as dívidas acima de R$ 100 mil
podem ser parceladas, mas sempre caso a caso e com prazo máximo de 60 vezes.
O relator do projeto de
conversão em lei da MP - e que aceitou a emenda de Gim Argello - é o senador
Vital do Rêgo, presidente das CPIs da Petrobrás no Congresso e candidato ao
governo da Paraíba. Ao ser questionado pelo Estado sobre o assunto, Vital disse
ter cometido um "equívoco". A intenção seria apenas abrir um programa
de refinanciamento para dívidas sob responsabilidade da Procuradoria-Geral da
Fazenda Nacional. No entanto, tais dívidas já estão contempladas por um
"Refis". Prometeu, compungido, modificar o texto no plenário do
Senado.
É de esperar. Num momento em
que o País dá mostras de que não quer diálogo com a corrupção, seria um claro
retrocesso o Congresso Nacional, por medidas pouco transparentes, abrir brechas
para dificultar a restituição aos cofres públicos de valores que deles saíram
indevidamente. Ou, pior ainda, institucionalizar parcelamento de multas. Que o
equívoco seja tratado como equívoco. E que sem-vergonhice continue a ser
sem-vergonhice, sem ganhar ares institucionais.
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