Problema maquiado
EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA
DE SP - 22/08
Contabilidade
criativa praticada pelo governo Dilma procura esconder real estado das contas
públicas e já afeta até INSS e programas sociais
Quando um governo se dispõe,
desconsiderando o pagamento de juros, a gastar menos do que arrecada (ou seja,
fazer superavit primário), entende-se que sua intenção é demonstrar solidez e
responsabilidade administrativa. Ninguém gosta de emprestar dinheiro a quem
parece preso a uma espiral de dívidas cada vez maiores.
No governo Dilma Rousseff
(PT), todavia, predomina outra lógica. Sem economizar o que deveria, sua equipe
recorre a truques contábeis com o intuito de esconder a deterioração das contas
públicas --pratica, em outras palavras, a chamada contabilidade criativa. As
manobras já afetam até os repasses ao INSS e para programas sociais.
Com efeito, o Tesouro tem
retido recursos que deveriam ser encaminhados a bancos federais e que se
destinam a aposentadorias, seguro-desemprego, abono salarial, financiamento
rural e Bolsa Família.
Começam a aparecer, como
decorrência, atritos entre governo e bancos públicos, no colo dos quais cai a
fatura, ainda que temporariamente. A Caixa Econômica Federal, por exemplo,
recorreu à Advocacia-Geral da União para que os repasses fossem regularizados.
O governo também procura
obter mais dividendos das estatais a fim de fechar o caixa. Nada de errado, a
princípio, em contar com tais recursos, mas há evidências de que não se veriam
as cifras em questão no CURSO normal dos negócios --a saúde financeira dessas
empresas, portanto, pode terminar ameaçada.
Em meio a tantas camadas de
maquiagem, perde-se a transparência das contas. Sabe-se, porém, que a meta de
economia de R$ 99 bilhões neste ano (1,9% do PIB) dificilmente será atingida.
No primeiro semestre, acumulou-se um saldo de R$ 29,4 bilhões.
Pior, descontadas as
manobras, alguns analistas estimam que o governo se aproxima de um deficit
primário, algo que não ocorria desde o fim dos anos 1990.
A piora das contas tem
consequências práticas muito claras. Entre elas estão juros altos, maior
pressão inflacionária e rebaixamento adicional da nota de crédito do país, o
que poderia levar à fuga de recursos para o exterior.
Instaura-se, assim, um ciclo
vicioso: o setor privado deixa de confiar no país, os investimentos se retraem,
a arrecadação encolhe, o governo não atinge o superavit primário anunciado.
Não é por acaso que a
expectativa de crescimento da economia só diminui e o Brasil está à beira de
uma recessão. Dados do Banco Central mostraram estagnação no primeiro semestre,
e o governo reage com a receita de sempre: um pacote para estimular o crédito.
A continuidade dessas
tendências não é inevitável. Revertê-las, todavia, requer demonstração de
austeridade e abandono das manipulações com objetivos eleitorais.
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