Para ocultar
a podridão
EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO -
05/08
Só pode ter uma causa a
farsa armada pelo governo, o PT e a Petrobrás na Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) sobre o escândalo da compra da Refinaria de Pasadena, em curso
no Senado - a seleção sob medida e o repasse antecipado das questões a cair nas
sabatinas a que se submeteriam figurões da estatal, como revelou a revista Veja
-: a ânsia de calafetar até a mais microscópica das frestas do caso para que
permaneçam nas sombras as dimensões do pântano profundo que recobre os
subterrâneos da transação.
Segundo o transcrito de uma
conversa de 20 minutos filmada a que a publicação teve acesso, o chefe do
escritório da Petrobrás em Brasília, José Eduardo Sobral Barrocas, comentou com
o advogado da empresa, Bruno Ferreira, e um terceiro interlocutor não
identificado que o assessor especial da Secretaria de Relações Institucionais
da Presidência da República, Paulo Argenta; o assessor da liderança do governo
no Senado, Marco Rogério de Souza; e o assessor da liderança do PT na Casa,
Carlos Hetzel, foram os autores das perguntas previamente encaminhadas à
presidente da petroleira, Graça Foster, ao seu antecessor Sérgio Gabrielli e ao
ex-diretor Nestor Cerveró, para que combinassem as respostas a fim de não cair
em contradição. Eles depuseram na CPI entre os dias 20 e 27 de maio.
Dos 13 membros do colegiado,
que tem 180 dias de prazo para apurar o negócio de Pasadena e as ligações de
funcionários da Petrobrás com o doleiro Alberto Youssef, 10 são governistas.
Maioria na Casa, as lideranças do PMDB, PT e de outras siglas da base do
Planalto haviam se apropriado, numa operação a que não esteve alheia a
presidente Dilma Rousseff, de uma iniciativa da oposição, quando ficou claro
que não seria possível bloqueá-la. Lesados, os oposicionistas conseguiram
emplacar outra CPI, dessa vez mista, e ignoraram a contrafação montada no
Senado, tendo como presidente o peemedebista Vital do Rêgo e como relator o
petista José Pimentel. Nem essa confortável situação era o bastante, agora se
sabe. "Risco zero" foi a palavra de ordem.
Isso não pode ser atribuído
a um velho cacoete petista nem, apenas, ao cuidado para que nada, absolutamente
nada, possa respingar no projeto da reeleição de Dilma - que, em 2006, chefiando
o Conselho de Administração da Petrobrás, autorizou a compra de metade da
refinaria, por 8,5 vezes mais do que a sua proprietária, o grupo belga Astra
Oil, havia pago pelo empreendimento inteiro, apenas um ano antes. A estatal
acabaria enterrando na tenebrosa transação US$ 1,245 bilhão, com um prejuízo de
US$ 792 milhões, segundo o Tribunal de Contas da União. Em decisão recente, que
se seguiu a intenso trabalho de lobby, o órgão isentou a presidente de qualquer
responsabilidade pelo maior rombo na história da empresa e resolveu abrir outra
ação contra 11 dos seus diretores ou ex-diretores.
Por que então os operadores
do Planalto, com a presumível cumplicidade do relator José Pimentel, prepararam
e entregaram a "cola" da prova aos sabatinados? Repita-se: o único
motivo que faz sentido era impedir que, por descuido, um deles desse uma pista
das enormidades que possam estar por trás do escândalo de Pasadena. Não que
inexistam indícios veementes disso. Basta citar um exemplo pontual, uma ponta
de iceberg: um relatório da própria Petrobrás, obtido em abril pelo jornal O
Globo, descobriu que, em fevereiro de 2010, US$ 10 milhões foram retirados da
conta da refinaria mediante mera autorização verbal - não se sabe de quem, para
quem e para quê. E Pasadena muito provavelmente não foi um raio em céu azul.
O PT no poder, ao aparelhar
a Petrobrás, "criou um monstro", como disse certa vez o general
Golbery do Couto e Silva da sua criatura, o Serviço Nacional de Informações
(SNI). E se há uma personagem central nesse processo, que permitiu o
inadmissível na estatal, é a então ministra de Minas e Energia, depois titular
do Gabinete Civil e, enfim, chefe do governo. Ninguém, ao longo desses anos,
nem mesmo o ex-presidente Lula, há de ter tido influência comparável na
estatal. É dela, portanto, a responsabilidade objetiva - não por uma ou outra
decisão desastrosa ou falcatrua, mas pelo conjunto da obra.

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