A verdade abafada
EDITORIAL
ZERO HORA
ZERO
HORA - 06/08
Os brasileiros foram
alertados, pela denúncia de um esquema de perguntas e respostas arranjadas, na
CPI da Petrobras no Senado, de como Congresso e governo se dedicaram a uma
fraude. Ao invés de contribuir para o esclarecimento da compra da refinaria de
Pasadena, nos Estados Unidos, os parlamentares, em conluio com assessores e
dirigentes da estatal, teriam combinado o que indagar e o que responder. A
denúncia foi feita pela revista Veja, a partir de conversas gravadas entre
supostos envolvidos no esquema. São muito fortes os indícios de que os
governistas, na empresa e no Parlamento, articularam um teatro na comissão.
Membros da CPI, que recebiam um roteiro de questões, fingiam que perguntavam. E
os depoentes, entre os quais integrantes do alto comando da Petrobras, fingiam
que respondiam.
A notícia serviu para fazer
outro alerta: a comissão, por incrível que possa parecer, já que pouco ou nada
esclareceu até agora, continua funcionando. A encenação em torno do caso de
Pasadena é mais uma evidência do poder político dos que estendem suas
influências às estatais, para assim realizar manobras escapistas. São muitas as
evidências de que a Petrobras foi aparelhada, para que as tentativas de investigação
da CPI, por mais tênues que fossem, resultassem em fracasso. A empresa já
divulgou nota oficial com o argumento de que a simulação de perguntas e
respostas faz parte de práticas de gestão, como forma de treinar servidores
para eventos externos. Esse tipo de exercício é de fato utilizado por
corporações privadas e públicas. Mas seria ingênuo imaginar-se que a
manipulação dos depoimentos na CPI seja resultante desse tipo de treinamento.
O que a revista revelou é,
na verdade, um fingimento claramente caracterizado como delito. No rastro da
denúncia, reproduziram-se argumentos que tentam minimizar a gravidade do caso,
como o de que tais atitudes são corriqueiras em CPIs. De acordo com esse
raciocínio, como a armação em comissões de inquérito são recorrentes, todos
deveriam ser anistiados. Não é o que se espera do Senado. O presidente da Casa
já anunciou que irá investigar a fraude, numa reação previsível, mas que não
deve estimular maiores expectativas porque a maioria parlamentar apoia o
governo. Anuncia-se também que a Polícia Federal foi informada do ocorrido,
para que participe das sindicâncias.
Não há o que esperar do
Senado, que foi incapaz de se prevenir e de identificar o escândalo agora
denunciado. É pouco provável que seja competente para chegar aos cúmplices
dentro do Congresso e, se for o caso, puni-los. A oposição, que, em minoria,
boicotou a CPI, também é, indiretamente, responsável pelo ocorrido. CPIs têm
raros exemplos de êxito, e esta passa a figurar entre as que contribuem apenas
para a desmoralização do Legislativo. Além da comissão no Senado, o Congresso
instalou há pouco mais de dois meses outra CPI Mista, com integrantes das duas
casas legislativas e com o mesmo objetivo. O comportamento adotado pelos
parlamentares até aqui abala a esperança dos que esperam ver, finalmente, o
negócio de Pasadena esclarecido.
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