É votando que se aprende a votar
PAULO
BROSSARD
ZERO
HORA - 03/11
Encerrado o processo
eleitoral, aliás marcado por condutas incompatíveis com o convívio humano e
muito menos com a disputa democrática, viu-se que a candidata à reeleição, que
dissera que na eleição "faria o diabo", cumpriu sua promessa, e que seu
partido fez coisas de encabular o demônio.
Limito-me a salientar uma
questão que encerra outras, assim significativas como preocupantes. A principal
revista de circulação nacional publicou, na edição que circulou às vésperas da
eleição, matéria de capa em que um réu, em processo de delação premiada, disse
que o ex-presidente e a atual tinham conhecimento das entranhas do malfadado
"petrolão".
Em reação, a candidata e seu
principal cabo eleitoral falaram em golpe, o que ninguém levou a sério;
articularam inédita censura à Justiça Eleitoral; sem falar em depredações e
ataques ao prédio da editora, há tanto tempo não vistos entre nós que
poderíamos denominar de vetustos empastelamentos.
Por mais crédulo que alguém
seja, poderia conceber que o presidente Luís Inácio ignorasse a existência do
mensalão e de suas funções, assim como do esquema de financiamento partidário
que veio a sucedê-lo? Seria plausível julgar que o presidente da Petrobras e os
ministros de Estado com ela envolvidos ignorassem as linhas de produção e os
valores de negócios da maior empresa nacional?
Essa obviedade, que o
jornalista Nelson Rodrigues chamaria de ululante, foi a bombástica revelação da
revista e provocou reação não vista no país em mais de meio século. Os grupos
de arruaceiros, alguns subsidiados com verbas oficiais, que já proliferam na
Venezuela e têm inspiração nas SA do nazismo, são ameaça concreta e perigosa à
democracia.
O fato faz lembrar a reação
do tirano que, sabendo que estava a caminho mensagem com notícia que lhe era
adversa, determinou a seus sequazes que eliminassem o mensageiro.
Contudo, por maiores que
tenham sido os deslizes e as máculas do prélio eleitoral, não hesito em
reconhecer e proclamar que também foram úteis e promissores os efeitos
positivos dessa experiência. De mais a mais, é votando que se aprende a votar.
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