O BRASIL PREFERE A CIGARRA
por
Percival Puggina.
Artigo
publicado em 02.11.2014
Todo dia recebo mensagens de
petistas. Muitas procedem de gente boa, que tenta justificar moralmente seu
voto em Dilma sob a alegação de que "corruptos por corruptos eu fico com
os que, na minha opinião, estão conduzindo melhor o país".
Tal frase é produto de duas
informações falsas. Segundo ela, a) os números do governo petista seriam
favoráveis quando comparados com os do governo tucano; b) se o governo petista
foi uma infindável sucessão de escândalos, com o alto comando do partido
mudando-se para a Papuda, também no governo FHC houve corrupção, "como
todo mundo sabe". Sabe? Veremos.
1) Os números favoráveis do
governo petista
É sempre difícil e impreciso
comparar situações sociais, políticas e econômicas em épocas e circunstâncias
diversas. Mesmo assim, julgo importante lembrar que os anos de Lula foram
mágicos para o Tesouro Nacional e para as contas públicas. Naquele período, o
mercado chinês foi às compras com uma voracidade inexcedível em qualquer
momento da história. Centenas de milhões de chineses passaram a demandar
grandes quantidades de quase tudo que o mundo podia oferecer. Nossas
commodities alcançaram preços antes impensáveis.
No governo FHC, o Brasil
precisou vencer uma inflação de 80% ao mês e reverter, com severo ajuste
fiscal, a má fama brasileira no mercado mundial. O governo Lula surfou na onda
chinesa. O estouro dos mercados mundiais de 2008 encontrou o Brasil bem
protegido por um ortopédico colchão de divisas, levando a gestão petista a
julgar desnecessário adequar-se. Enquanto outros países faziam como a formiga
da fábula de Esopo, o PT, deslumbrado pelo que considerava êxitos seus,
brincava de cigarra. Por isso, os 12 anos petistas resultaram desastrosos
política, moral, econômica e financeiramente.
O PT gosta de comparar
certos dados de 2014 com os de 2002 (último ano do governo tucano). Omite,
porém, o fato de que nos meses que precederam a vitória e a posse de Lula, o
medo tomou conta dos mercados. A bolsa caiu, o dólar disparou e os preços
subiram como precaução ante o que aconteceria se o PT, ao assumir, fizesse o
que, irresponsavelmente, exigia de seu antecessor. Tal comparação, portanto,
alcança requintes de desonestidade: é o PT cobrando de seu opositor o mal que
ele próprio causou por ter feito uma oposição perversa e moralmente desonesta.
Os fatos divergem do que o
PT gosta de proclamar: o Brasil deve muito ao governo de FHC. Agora, sob a
gestão petista, apresenta um desempenho muito inferior ao dos países de seu
entorno, que foram mais prudentes nas suas contas. O Brasil de Lula e Dilma
malbaratou os ganhos herdados e se reencontra, agora, com os velhos males da
inflação e da recessão. Ao fim e ao cabo, a gestão petista foi melhor? Melhor
em quê?
2) O alvará de boa conduta
passado pelo PT ao PSDB
Pela cartilha petista, escândalo
no território inimigo era e continua sendo coisa que ou existe ou se fabrica.
Onde houvesse o mais tênue fio de fumaça da suspeita o partido era o primeiro a
chegar, com um tonel de gasolina. Apontava o dedo acusador com a suposta
autoridade moral de quem jamais contou dinheiro mal havido. Foi assim que o
partido, sem muito esforço, diga-se, destruiu moralmente os governos Collor e
Sarney. Foi assim que o partido avançou contra o governo FHC, requerendo mais
de duas dezenas de CPIs, sempre com apoio da mesma mídia que o PT hoje execra.
As investidas foram tantas, tão contínuas e violentas que o prestígio do
ex-presidente despencou dos elevados índices a que chegara nos pleitos que
venceu. Quanto de verdade havia naquelas acusações? Não pergunte isso ao PT.
Sabe por quê? Porque o PT concedeu ao PSDB um atestado de boa conduta.
Com efeito, em 2003, com a
posse de Lula, os petistas não mais dependiam das CPIs para investigar coisa
alguma. Passavam a dispor de todos os meios para isso. Ministério da Justiça,
Controladoria-Geral da União, ABIN, Polícia Federal, Receita Federal, eram
apenas alguns dentre os muitos instrumentos disponíveis. Sem esquecer, ainda,
gavetas e arquivos de todos os ministérios, repartições e empresas estatais do
país. Entretanto, surpresa! Empossado Lula, a inquisição petista deve ter
embarcado em Alcântara rumo a algum asteróide distante. Nada foi investigado! O
outrora refinado faro não capta mau cheiro sequer quando vem da sola do próprio
sapato. Seus sherloques, seus produtores de dossiês, seus assassinos de
reputações, que antes pareciam saber de tudo que acontecia na República, foram
acometidos de um alheamento, de um autismo em que não apenas ninguém está a par
do que acontece na sala ao lado, mas é a própria mão direita a primeira a
desconhecer o que a esquerda faz. Sobre essa duplicidade de conduta nada se
fala, nada se escreve. Quando não há explicação moralmente aceitável é
preferível deixar o dito pelo não dito. E Lula maneja com perfeição a
prolongada retórica do silêncio. Se, na oposição, acusavam sem evidências,
cometeram crimes de injúria e difamação. Se, no governo, dispunham de meios
para investigar e não o fizeram, cometeram crime de prevaricação.
Já cansei de escrever sobre
isso. E só colho silêncio como resposta. É um silêncio que comprova a tese: o
melhor atestado de boa conduta do PSDB é passado pelo PT. O resto é conversa
fiada. Não, não sou tucano. Nem idiota.
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* Percival Puggina (69),
membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor
e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de
jornais e sites no país.
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