O BRASIL NÃO É BUTIM DOS VITORIOSOS
PERCIVAL
PUGGINA
ZERO
HORA -14 de fevereiro de 2015
Não mesmo! Impeachment não é
golpe. Golpe é o que foi aplicado no eleitorado e no patrimônio público.
Golpista será toda tentativa de impedir manifestações populares ordeiras em
favor do trâmite de um processo de impeachment. Golpes ocorrem fora do
ordenamento jurídico. Impeachment, ao contrário, é um procedimento
constitucional, demorado e ponderado, regulamentado em lei específica. É um
instrumento previsto porque necessário ao presidencialismo.
Tampouco é coisa “da
direita”, como alguns com mais preconceitos do que conceitos têm sugerido. Essa
afirmação, aliás, é tiro no pé. É acusação maldosa à própria esquerda pois
significaria que perdeu o senso moral. O processo de impeachment de que hoje
tanto se fala no Brasil tem a ver com crime de responsabilidade, com ações e
omissões que lesam o país. Por outro lado, o único processo de impeachment que
produziu efeitos no Brasil, embora a renúncia de Collor tenha interrompido sua
tramitação, resultou de mobilização promovida pela esquerda, notadamente
através da UNE e da CUT. Prefiro crer que ainda exista boa intenção e reta
conduta em certos setores da esquerda brasileira. As pessoas conscientes,
independentemente de alinhamentos ideológicos, estão estarrecidas com a
liberdade de ação concedida aos que transformaram a administração federal
direta e indireta em butim dos vencedores.
Não estou exagerando. No
período de 2005 a 2014, enquanto a Ação Penal 470 (Mensalão) tramitava e as
penas eram impostas aos réus, a pilhagem da Petrobras se mantinha em livre
curso, como se nada estivesse acontecendo. E tudo se dava em benefício dos
mesmos partidos da base do governo! Descobriu-se, assim, que em muita gente a
cobiça supera o medo, seja ela engravatada ou descamisada. Tal é o móvel de boa
parte dos crimes cotidianos.
O doutor Ives Gandra, em
recente parecer, mostrou que as condições jurídicas para um processo de
impeachment estão dadas. Não é necessário que haja dolo. Basta a culpa. E
desta, a dose fornecida é abundante. Ora, se já houve culpa em alta dose,
poucas coisas importarão mais ao bem nacional e à probidade dos atos de governo
do que a viabilização das condições políticas que decorrem da pressão social,
como bem reconheceu o novo presidente da Câmara dos Deputados. Não imagino que
afeição partidária possa se sobrepor, nas consciências bem formadas, à boa
imagem do país, ao bem nacional e à retidão das condutas. Uma nação que, com
justa razão, queixa-se da impunidade geral, não pode endossar o que está
acontecendo no Brasil.

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