A MISÉRIA DA POLÍTICA
Fernando
Henrique Cardoso
O
ESTADO DE S. PAULO - 01/03
Por que a presidente Dilma se deu ao ridículo de atribuir a mim a
culpa do petrolão?
Otimista, por temperamento,
com os necessários freios que o realismo impõe, raramente me deixo abater pelo
desalento. Confesso que hoje, no entanto, quase desanimei: que dizer, que
recado dar diante (valham-me os clássicos) de tanto horror perante os céus?
Na procura de alento, pensei
em escrever sobre situações de outros países. Passei o carnaval em Cuba, país
que visitava pela terceira vez. A primeira, na década de 1980, quando era senador
- fui jurado num Prêmio Casa de Las Américas. Voltei à ilha como presidente da
República. Vi menos do povo e dos costumes do que na vez anterior: o circuito
oficial é bom para conhecer outras realidades, não as da sociedade. Agora
visitei Cuba como cidadão comum, sem seguranças nem salamaleques oficiais. Fui
para descansar e para admirar Havana, antes que o novo momento econômico de
relações com os Estados Unidos a modifique muito.
Não fui, portanto, para
avaliar a situação política (nem sequer possível em sete dias) ou para me
espantar com o já sabido, de bom e de mau, que lá existe. Não caberia,
portanto, regressar e fazer críticas ao que não olhei com maior profundidade.
Os únicos contatos mais formais que tive foram com Roberto Retamar (poeta e
diretor da referida Casa de Las Américas) , com o jornalista Ciro Bianchi e com
o conhecido romancista Leonardo Padura. Seu livro El Hombre que Amaba a los
Petros - sobre a perseguição a Trotski em seu exílio da União Soviética - é uma
admirável novela histórica. Rigorosa nos detalhes, aguda nas críticas, pode ser
lida como um livro policial, especialidade do autor, que, no caso, reconstitui
as desventuras do líder revolucionário e o monstruoso assassinato feito a mando
de Stalin.
Jantei com os três cubanos e
suas companheiras. Por que ressalto o fato, de resto trivial? Porque, embora
ocupando posições distintas no espectro político da ilha, mantiveram uma
conversa cordial sobre os temas políticos e sociais que iam surgindo. A
diversidade de posições políticas não tornava o diálogo impossível. Eles
próprios não se classificavam, suponho, em termos de "nós" e
"eles", os bons e os maus. Por outra parte, ainda que o cotidiano dos
cubanos seja de restrições econômicas que limitam as possibilidades de
bem-estar, em todos os populares com quem conversei senti esperanças de que no
futuro estarão melhor: o fim eventual do embargo, o fluxo de turistas, a
liberdade maior de ir e vir, as remessas aumentadas de dinheiro dos cubanos da
diáspora, tudo isso criou um horizonte mais desanuviado.
É certo que nem em todos os
contatos mais recentes que tive com pessoas de nossa região senti o mesmo
ânimo. Antes de viajar recebi ligação telefônica da mãe de Leopoldo López,
oposicionista venezuelano que cumpriu um ano de cadeia no dia 18 de fevereiro.
Ponderada e firme, a senhora me pediu que os brasileiros façamos algo para
evitar a continuidade do arbítrio. Ainda mantém esperanças de que, ademais dos
protestos no Congresso e na mídia, alguém do governo entenda nosso papel
histórico e grite pela liberdade e pela democracia.
Na semana passada foi a vez
de Henrique Capriles me telefonar para pedir solidariedade diante de novos atos
de arbítrio e truculência em seu país: o prefeito Antonio Ledezma, eleito para
o governo do Distrito Metropolitano de Caracas pelo voto popular, havia sido
preso dias antes em pleno exercício de suas funções. Não bastasse, em seguida
houve a invasão de vários diretórios de um partido oposicionista. Note-se, como
me disse Capriles, que Ledezma não é um político exaltado, que faz propostas
tresloucadas: ele, como muitos, deseja apenas manter viva a chama democrática e
mudar pela pressão popular, não pelas armas, o nefasto governo de Nicolás
Maduro. Esperamos todos que o desrespeito aos direitos humanos provoque reações
de repúdio ao que acontece na Venezuela.
Até mesmo os colombianos,
depois de meio século de luta armada, vão construindo veredas para a
pacificação. As Farc e o governo vêm há meses, lenta, penosa, mas
esperançadamente, abrindo frestas por onde possa passar um futuro melhor.
Amanhã, segunda-feira, 2 de março, o presidente Juan Manuel Santos e outras
personalidades, entre as quais Felipe González, estarão reunidos em Madri num
encontro promovido por El País (ao qual não comparecerei por motivos de força
maior) para reafirmar a fé na paz colombiana.
Enquanto isso, nós que
estamos longe de sofrer as restrições econômicas que maltratam o povo cubano ou
os arbítrios de poder que machucam os venezuelanos, eles também submetidos à
escassez de muitos produtos e serviços, nos afogamos em copo d"água.
Por que isso, diante de uma
situação infinitamente menos complexa? Porque Lula,em lugar de se erguer ao
patamar que a História requer, insiste em esbravejar, como fez ao final de
fevereiro, dizendo que colocará nas ruas as hostes do MST (pior, ele falou nos
"exércitos"...) para defender o que ninguém ataca, a democracia, e
-incrível - para salvar a Petrobrás de uma privatização que tucano algum
deseja? Por que a presidente Dilma se deu ao ridículo de fazer declarações
atribuindo a mim a culpa do petrolão? Não sabem ambos que quem está arruinando
a Petrobrás (espero que passageiramente) é o PT, que no afã de manter o poder
criou tubulações entre os cofres da estatal e sua tesouraria? Será que a lógica
do marquetismo eleitoral continuará a guiar os passos da presidente e de seu
partido? Não percebem que a situação nacional requer novos consensos, que não
significam adesão ao governo, mas viabilidade para o Brasil não perder suas
oportunidades históricas?
Confesso que tenho dúvidas
se o sentimento nacional, o interesse popular serão suficientes para dar maior
têmpera e grandeza a tais líderes, mesmo diante das circunstâncias
potencialmente dramáticas de que nos aproximamos. Num momento que exigiria
grandeza, o que se vê é a miséria da política.

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