A aflição oculta de Dilma
EDITORIAL
O ESTADÃO
O
ESTADO DE S.PAULO - 07/11
A presidente Dilma Rousseff
agarrou-se ao que seria a "consciência democrática" para dar um
verniz de grandeza política à hipocrisia de propor o desmonte dos palanques em
obediência ao imperativo de "saber ganhar e saber perder". A sua
invocação, em um encontro com a cúpula do PSD de Gilberto Kassab - candidato a
ministro das Cidades em troca de seu apoio ao Planalto -, não passa de uma
tentativa esfiapada de ocultar o que de fato a aflige. Apesar da soberba e do
senso de onipotência indissociáveis de sua personalidade, Dilma sabe que passou
raspando pelo escrutínio popular para a conquista do novo mandato. O seu
triunfo não foi político, mas estritamente eleitoral, obtido a torpezas, como a
de infundir na população mais desvalida o temor de que uma eventual vitória do
tucano Aécio Neves seria o fim do Bolsa Família.
Ela há de saber também que o
enfraquecimento do PT, evidenciado na perda de 18 das suas 88 cadeiras na
Câmara dos Deputados, contrastando com a ampliação da bancada do PSDB de 44
para 54 membros e incentivando as ambições hegemônicas do PMDB na Casa, a
deixará ainda mais vulnerável do que neste último ano do atual mandato. Sinal
dos tempos também, setores da base aliada parecem propensos a formar um bloco
"independente", cuja lealdade ao governo, portanto, seria medida caso
a caso. Políticos profissionais que são, não ignoram que uma coisa foi o
desfecho aritmético da disputa pelo poder; outra é a persistência da rejeição a
Dilma na opinião pública não petista. Eis o cenário que cerca desde já a segunda
posse da presidente. E é em razão desse panorama adverso que ela se põe a
desfilar como porta-bandeira da conciliação. "Se o nosso ritmo (sic) era
de mostrar as diferenças, nós agora temos que fazer a trajetória inversa",
apelou.
Ela seria mais convincente
se tivesse a decência de pedir desculpas pela virulência com que o PT derrotado
em 1998 tratou o governo Fernando Henrique. Não só aos berros de "Fora
FHC", como se esgoelava, entre tantos outros companheiros, o hoje
"moderado" governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (que, aliás,
não conseguiu se reeleger). Mas também mobilizando os sindicatos do
funcionalismo federal dominados pela CUT para afogar o governo em greves. À
época, Lula teria preferido perder a mobilidade a descer dos palanques. Presidente,
continuou aboletado neles durante oito anos, enquanto transpirava "a
pretensão de ser o último grito em matéria de visão política", o que a
oportunista Dilma hoje rejeita. O seu mentor, além disso, ficou afônico de
tanto se queixar da "herança maldita" que teria recebido. Sem querer,
a apadrinhada faz lembrar a expressão: "O passado nunca está morto. Nem
sequer passado é".
E o que tem sido este
primeiro período dilmista, se não a antítese do diálogo que deu de pregar -
repetiu o termo cinco vezes no improviso ao lado de Kassab e sua turma. Nenhum
setor da sociedade brasileira, nenhuma força política foi objeto natural dessa
interlocução, uma conduta costumeira dos dois governantes tão diversos entre si
que a antecederam. E quando, a insistentes rogos de Lula, os empresários foram
autorizados a ascender ao santuário planaltino, dali saíram, como se diz,
roucos de tanto ouvir. Sobram testemunhos disso. A solidão autossuficiente é o
abrigo de Dilma. Segundo um ex-colaborador, citado pela revista Piauí, seria a
marca psíquica que lhe deixou a clandestinidade de integrante de organizações
de luta armada contra a ditadura militar. De todo modo, nada indica, além das
palavras que já se desgastam de tanto ser repetidas, que Dilma II será
diferente de Dilma I.
O que justifica inteiramente
o ceticismo dos políticos, à semelhança de outros, diante da metamorfose
prometida. Ainda ontem, este jornal noticiou que Lula está empenhado em
construir uma firme base de apoio à afilhada no Senado. Ele teme que, se Dilma
persistir no seu olímpico isolamento, o provável líder da frente de oposição à
petista, Aécio Neves, atrairá senadores de partidos nominalmente alinhados com
o governo, mas com sintomas de fraturas internas, como o PMDB, o PP e o PDT. O
problema é que eles contam nos dedos as vezes em que Dilma se dignou a
recebê-los.
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