O MAL DE QUE NOS LIVRAMOS. LIVRAMOS?
por
Percival Puggina.
Artigo
publicado em 17.12.2014
Interessado na história do
período que vai de 1964 a 1985, ouvi falar e busquei assistir o documentário
Hércules 56. Trata-se de um longa, do diretor Sílvio Da-Rin, composto por
entrevistas, gravações de época e uma espécie de coletiva desenrolada numa mesa
de bar. Os participantes da coletiva são remanescentes dos sequestradores do
embaixador norte-americano em 1969 e do grupo despachado para o México, por
exigência deles, a bordo da aeronave que dá nome ao filme. Entre outros,
depõem, com a perspectiva que lhes permitiu um afastamento que já chega a
quatro décadas, Franklin Martins, Vladimir Palmeira, José Dirceu, Flávio
Tavares, Daniel Aarão Reis Filho e Paulo de Tarso Venceslau.
Eu assistira, antes, ao “O que é isso
companheiro?”. Nele, Fernando Gabeira assume participação importante no
sequestro. Em Hércules 56 Gabeira some. Por quê? O diretor, após a estreia, em
2006, explicou que Gabeira fora “soldado raso” na operação e jamais teria
participado não houvessem os líderes escolhido para refúgio a casa onde ele
morava. Praticamente mandou Gabeira procurar a própria turma e não inventar
lorota. Só encontro uma explicação: o então deputado Fernando Gabeira se
transferira do PT para o PV e perdera a simpatia dos companheiros.
Do conjunto da obra
(Hércules 56 é um bom filme), concluí que, hoje, a maior parte dos
protagonistas considera o seqüestro e a luta armada como equívocos que
estimularam o endurecimento e a continuidade do regime. Escolheram esse caminho
por descrerem do jogo democrático. Eram militantes, dispostos a morrer e a
matar pela revolução que julgavam estar fazendo, e sobre cuja existência real,
pelo que pude presumir, não têm mais tanta certeza.
Foi exatamente aí que nasceu a observação
registrada no título deste artigo: do que escapamos! Imagine, leitor, se, em
vez de senhores de meia idade, reflexivos mas orgulhosos dos seus ímpetos
juvenis como se apresentam no filme, eles tivessem sido vitoriosos, e chegassem
ao poder, como desejavam, na esteira do que realizara Fidel partindo de Sierra Maestra.
O que teriam implantado no Brasil? Totalitarismo marxista-leninista,
expropriações, tribunais revolucionários e execução de conservadores, liberais,
burgueses, latifundiários, empresários, direitistas. E mais, partido único e
total absorção da comunicação social pelo Estado. Era o que na época se chamava
“democracia popular”, regime adotado pelas referências mundiais do comunismo.
Não estarei indo longe demais? Não. Assista ao
filme e ouvirá Vladimir Palmeira elogiar o chefe do sequestro, Virgílio Gomes
da Silva, por lhes ter dito: “Se houver algum problema que, por desobediência a
uma ordem minha ou vacilação, coloque em risco a operação, não pensem que vou
esperar um tribunal revolucionário. Eu executo na hora”. Quem trata assim os
companheiros, como procederá com os adversários? Noutra passagem, os
entrevistados respondem à seguinte questão: caso as exigências não fossem
atendidas pelo governo, o embaixador seria executado? Foi unânime a
confirmação. Palmeira ilustra que essa mesma pergunta lhe fora feita no
interrogatório posterior à sua prisão. Resposta: “Teria executado, sim; eu
cumpro ordens”. E os cavalheiros, ex-revolucionários, em volta da mesa do bar,
riram com ele. Franklin Martins riu mais alto do que todos.
Hoje, personagens daqueles anos
acantonaram-se no poder e estamos sob severo risco de andar na mesma direção,
por outros meios e com outros modos.
* O filme "Hércules
56" está disponível em boas locadoras e, dividido em nove partes, pode ser
assistido no YouTube, buscado pelo título.

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