Pouca mudança
EDITORIAL
FOLHA DE SP
FOLHA
DE SP - 23/06
Discursos na convenção do PT
não ocultam contradições do partido e repetem visão estereotipada sobre o
debate político brasileiro
Continuidade e mudança: este
seria o eixo que, nominalmente, orienta a campanha pela reeleição de Dilma
Rousseff à Presidência da República. Não sem habilidade, o lema procura dar
conotação positiva às atuais dificuldades da postulação petista.
Com a popularidade em baixa,
num clima de pessimismo econômico, Dilma não tem como se apresentar ao
eleitorado sem acenar com alguma correção de rumos.
Ao mesmo tempo, busca
reassegurar os que a apoiam --e a manutenção das políticas sociais aprofundadas
a partir do governo Lula constitui, por assim dizer, o marco mínimo a partir do
qual traçar o discurso de campanha.
Embora o binômio da
continuidade e da mudança expresse um equilíbrio retórico delicado, não se
trata, em tese, de nenhuma quadratura do círculo. Mas os problemas dessa
formulação se amplificam quando se tenta concretizá-la.
Vieram acrescidos de sérias
contradições, aliás, na cerimônia de oficialização da candidatura Dilma,
ocorrida neste sábado (21).
Mudanças, por certo, são
necessárias; mas quais? Além de promessas requentadas sobre desburocratização,
universalização da banda larga e reforma política, em torno de que prioridades
se aglutina o heterogêneo espectro de alianças partidárias que, agora com a
exceção do PTB, supostamente daria base parlamentar aos projetos legislativos
de Dilma?
Quanto à
"continuidade", tampouco é claro o que significa. Até mesmo os
setores mais entusiastas do petismo sabem que a lista das demandas sociais
tende a ser inesgotável, e que a pauta de benefícios agora colocada pela
sociedade é de outra natureza.
A bandeira da continuidade
só se sustenta, em termos eleitorais, por meio de outro recurso: o da
demonização do adversário. Seria para evitar uma "volta ao passado"
--com o fantasma de um declínio no nível de renda dos mais pobres-- que valeria
a pena manter tudo como está.
Surge a partir daí um outro
binômio, este sim perverso, na orientação da campanha petista. Enquanto a
candidata Dilma Rousseff aposta num perfil mais simpático e aberto ao diálogo
com outros setores da sociedade, em especial o empresariado, Lula e outras
figuras do PT alimentam a sede de maniqueísmo da militância.
Na convenção de sábado,
alternou-se a atitude vitimizante que atribui a conspirações de direita o
"ódio" contra o PT e o discurso inverso, o do ataque indiscriminado.
Nesse mar de contradições em que o partido navega, o dedo apontado contra as
"elites brancas" não impede a mão estendida a antigos defensores do
regime militar.
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