Nem vítimas nem algozes
MERVAL
PEREIRA
O
GLOBO - 26/06
Muito embora o plenário do
Supremo tribunal Federal (STF) tenha reformado a decisão monocrática do
ministro Joaquim Barbosa com relação à exigência de cumprimento de 1/6 da pena
para que o condenado no regime semiaberto possa ter um trabalho externo, não aconteceu
o que os militantes petistas tanto queriam, uma desmoralização do presidente
demissionário, identificado por eles como um perseguidor dos mensaleiros
condenados.
A começar pela manutenção da
negativa de prisão domiciliar para o ex-presidente do PT José Genoíno, o
plenário do STF analisou as decisões de Barbosa referentes à execução das penas
do processo do mensalão dando-lhe razão em alguns casos e discordando em
outros, sempre ressaltando, por praticamente todos os membros, que a lei de
execuções penais compreende diversas interpretações, não sendo nenhuma das
decisões de Joaquim Barbosa questionável por ilegal ou despropositada.
Não há no caso nem vítimas
nem algozes, como ressaltou o decano do Supremo, o ministro Celso de Mello, que
fez questão de ressaltar a justeza das condenações e o caráter antidemocrático
dos atos praticados pelos réus do mensalão.
O caso de Genoíno se
transformou em emblemática questão política, já que petistas utilizaram todos
os meios para espalhar a ideia de que o ex-presidente do PT, contra o que dizem
diversos laudos médicos, corre risco de vida se não for liberada sua prisão
domiciliar.
O ministro Luís Roberto
Barroso, que assumiu a relatoria das execuções penais com a demissão de
Barbosa, desde o primeiro momento que participou do julgamento do mensalão
parece constrangido em condenar Genoíno, e ontem voltou a elogiá-lo. No
primeiro momento, lamentou condenar um homem que participou da resistência à
ditadura no Brasil, em um tempo em que isso exigia abnegação e envolvia muitos riscos.
Esse discurso elogioso
provocou a reação de diversos ministros na ocasião. A Ministra Carmen Lúcia
disse que o juiz, infelizmente, não julga histórias, porque as histórias às
vezes são feitas de desvios que seriam impensáveis de serem praticados em outra
circunstância.
Ontem, Barroso classificou Genoíno
de símbolo do republicanismo e do igualitarismo antes de negar o pedido para
que a prisão fosse transformada em domiciliar. Mas, sem que a questão estivesse
em pauta, lembrou que Genoíno cumpre 1/6 da pena em dois meses, dando a
entender que a partir daí poderá ir para casa.
A questão do cumprimento de
1/6 das penas para a autorização de trabalho externo suscitou uma boa discussão
sobre o sistema penitenciário e demonstrou que Barbosa não estava exagerando ao
interpretar ao pé da letra a exigência do Código Penal.
Celso de Mello foi o único
voto a apoiar Barbosa, mas não é o único a considerar que a jurisprudência do
STF deve prevalecer sobre a do STJ, que desde 1999 vem admitindo o trabalho
externo sem o cumprimento mínimo da pena. Mesmo os que votaram contra a posição
de Barbosa, a começar pelo relator Barroso, admitiram que a situação do sistema
penitenciário é um descalabro, e que a flexibilização da lei é necessária para
conviver com nossa triste realidade.
A tese vencedora foi que a
razoabilidade exige interpretação mais generosa da legislação, sendo lembrado
que o Rio Grande do Sul já definiu que os presos em semiaberto devem ir para
prisão domiciliar por falta de vagas compatíveis com o tipo de condenação. Esse
assunto será levado ao plenário do STF pelo ministro Gilmar Mendes para que
haja deliberação sobre essa decisão da justiça gaúcha.
Ficou claro que o estilo
centralizador e autoritário do presidente demissionário Joaquim Barbosa não é o
da preferência do plenário, tanto que a execução das penas será transferida
para Vara de Execuções Penais de Brasília, e não centralizada pelo novo
relator.
Mas ficou evidenciado que
Barbosa não abusou de seu poder nem tomou decisões sem o apoio da lei. E
certamente há um pensamento majoritário na sociedade, já detectado por
pesquisas: o mensalão petista só levou poderosos para a cadeia e os manteve lá
pelo estilo centralizador e autoritário de Barbosa, amplamente aprovado pela
população, a ponto de uma parcela representativa querê-lo como candidato à
Presidência.

Nenhum comentário:
Postar um comentário