Cínicos, e daí?
GUILHERME
FIUZA
O
GLOBO - 07/06
Brasil teve sete anos para
consertar caos dos aeroportos. E o governo popular passou sete anos humilhando
os passageiros
Durante sete anos, as
autoridades federais rebateram os prognósticos de que o Brasil não se
prepararia a contento para sediar a Copa do Mundo. Diante do bordão “imagina na
Copa”, que apontava flagrantes de desorganização, o governo criticava os
pessimistas de plantão. Como a Copa chegou e a bagunça geral não é mais uma
questão de pessimismo, os companheiros já têm outra resposta na ponta da
língua: “E daí?”
“As obras que não ficarem
prontas para a Copa ficarão prontas em agosto, em setembro. E daí?”, argumentou
o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho. De fato, não
há problema. Até porque, se as obras não ficarem prontas em setembro (para a
eleição), ficarão prontas em novembro, em dezembro (para o Natal). E daí? O
povo pode votar tranquilo em Dilma, que um dia ela entrega o prometido.
O Brasil teve sete anos para
consertar o caos dos aeroportos e da aviação civil. E o governo popular passou
sete anos humilhando os passageiros — até com falta de banheiro e
ar-condicionado — para enfim, às vésperas da Copa, decidir entregar os
aeroportos à iniciativa privada (que infelizmente não tem varinha de condão).
Não pôde fazer isso antes, porque a Agência Nacional de Aviação Civil estava
alugada à quadrilha de Rosemary Noronha, a protegida de Lula e Dilma. E daí?
São coisas da vida. Numa
variação ousada da nova resposta padrão, Dilma Rousseff peitou os críticos:
“Estamos atrasados em relação a quê?”
Como se vê, não há como
responsabilizar o governo popular por nada. Tudo é relativo. A reforma dos
aeroportos está atrasada em relação a quê? Em relação ao Itaquerão, por
exemplo, não há atraso nenhum. O estádio que Lula mandou o contribuinte dar de
presente ao Corinthians e comparsas associados só será testado, em plena
capacidade e com o sistema de comunicação funcionando, na abertura da Copa.
Quem considera isso um absurdo e uma temeridade está atrasado em relação ao
moderno conceito de governo sereno e despreocupado.
Com isso, Dilma quis dizer
também que os atrasos em relação à Copa são um detalhe, porque as obras não são
para um torneio, “são para os brasileiros”. Enfim, esqueçam a Copa do Mundo. A
vida continua. Um dia você vai entender que valeu a pena esperar Rosemary
encher os bolsos para viajar num aeroporto decente.
E nesse exercício de
libertar a todos da ansiedade com a Copa, Gilberto Carvalho mostrou que os
brasileiros devem lamber os beiços com os presentes que estão ganhando de graça
e fora de época: “Eu diria que não há atraso, há na verdade uma antecipação de
obras que as cidades não teriam.” Ou seja: deixe de ser ingrato e espere
sentado pelas coisas que o governo nem ia lhe dar.
Já que a Copa do Mundo é um
pretexto para o governo fazer o que não ia fazer, poderia ter planejado há sete
anos a expansão do metrô nas maiores capitais. É o tipo de obra crucial que
depende de verba federal. Havia tempo e dinheiro para isso, mas a dinastia
Lula-Dilma preferiu enterrar uma fortuna do BNDES em estádios novinhos (2,5
bilhões de reais só para o Mané Garrincha e o Itaquerão). E daí?
Não pergunte por que os
negócios com o evento esportivo são mais atraentes. Apenas olhe o prontuário
das instituições envolvidas. A Polícia Federal está investigando a relação
entre uma consultoria de planejamento da Copa, contratada pelo Ministério dos
Esportes, e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, sempre ele. Está
tudo em casa. É um mundo de oportunidades subterrâneas, que passou os últimos
sete anos exalando seu cheiro pelos bueiros, sem perturbar o sono dessas almas
penadas que agora ficam atrapalhando o trânsito e gritando que não vai ter
Copa.
Pobre Neymar. O astro das
únicas jogadas limpas nesse lodaçal tem que ver o ônibus em que está ser
esmurrado por manifestantes retardatários — ou, como diria Daniel Alves sobre a
turma da banana, retardados. Mas também aí se pode recorrer à ponderação da
presidente: retardados em relação a quê?
O governo popular se
especializou em relativização. Até o déficit público é relativo, dependendo da
quantidade de maquiagem utilizada. O IBGE também já estava preparado para
relativizar os dados do desemprego, com a decisão de suspender a pesquisa nacional
contínua. Mas a manobra vazou, a pesquisa continuou e o aumento do desemprego
apareceu. E daí?
Uma cara de pau bem
atarraxada vale por mil explicações desonestas. No julgamento do mensalão, o
deputado André Vargas — esse mesmo que chegou ao olimpo petista turbinado pelo
doleiro da Petrobras — tentou proibir a transmissão ao vivo das sessões no
Supremo. A TV atrapalha a relativização das coisas. E, já que a preparação do
país para a Copa foi salva pelas palavras palacianas, talvez seja melhor substituir
logo a transmissão dos jogos por boletins da Presidência. Aí ninguém nos tira o
hexa.
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