A 'imagem do Brasil'
DEMÉTRIO
MAGNOLI
FOLHA
DE SP - 31/05
Os cidadãos hoje são reféns
de militantes iracundos, que não buscam persuadir maiorias, mas provocar o
colapso da vida urbana.
Fernando Haddad proferira a
palavra "guerrilha", referindo-se à greve dos motoristas de ônibus.
Na terça, Dilma Rousseff pronunciou a palavra "baderna", referindo-se
às manifestações de rua. Minutos depois, liderados por um movimento de sem-teto
e por índios armados com arcos e flechas, 2.500 pessoas interromperam o
trânsito em Brasília. "É a imagem do Brasil que estará em jogo",
explicou a presidente, avisando que "vai chamar o Exército,
imediatamente", para reprimir a "baderna" durante a Copa do
Mundo. A "imagem" toca num nervo sensível do governo. Em nome dela,
por um mês e às custas da ordem democrática, Dilma promete assegurar o direito
de ir e vir das pessoas comuns.
A "baderna" é, há
tempo, a "imagem do Brasil" --com a diferença, apenas, de que o mundo
não estava vendo. Sob o influxo do PT, movimentos minoritários aprenderam que,
reunindo algumas centenas de manifestantes, têm a prerrogativa de parar cidades
inteiras. A tática, esporádica durante anos, tornou-se rotineira depois das
multitudinárias "jornadas de junho". Nas metrópoles, os cidadãos
converteram-se em reféns de militantes iracundos, que não buscam persuadir
maiorias, mas unicamente provocar o colapso da vida urbana. O problema de Dilma
é que chegou a hora da Copa: agora, a "baderna" ameaça a sacrossanta
"imagem do Brasil", não os desprezíveis direitos das pessoas.
O conflito entre direitos é
um traço marcante das democracias. A liberdade de expressão é regulada por leis
que protegem a privacidade e a imagem dos indivíduos. O direito de greve é
regulado por disposições que asseguram o funcionamento de serviços essenciais.
O direito de manifestação pública é limitado por regras que impedem a anulação
do direito de circulação das pessoas. No Brasil do lulopetismo, contudo,
aboliu-se tacitamente o direito de ir e vir. Acuadas pelo PT, as autoridades
renunciaram ao dever de garanti-lo, curvando- se à vontade soberana de
dirigentes sindicais e lideranças de movimentos sociais.
Nas democracias, o
equilíbrio entre os direitos de manifestação e de circulação no espaço público
deriva de uma série de regras. Manifestações são autorizadas mediante aviso
prévio às autoridades e acertos sobre lugares de concentração e trajetos de
passeatas. No Brasil, nada disso existe pois não interessa ao Partido: a vigência
de regras gerais, de aplicação indistinta, restringiria as oportunidades de
orquestração de ações de "baderna" moduladas em cenários de disputa
eleitoral. O problema de Dilma é que, na hora da Copa, emergiram movimentos que
nem sempre se subordinam às conveniências do Partido. A presidente resolveu,
então, militarizar provisoriamente o país. No poder, o lulopetismo oscila entre
a política da "baderna" e o recurso ao autoritarismo.
"Não vai acontecer na
Copa do Mundo o que aconteceu na Copa das Confederações", garantiu Dilma a
uma plateia de aflitos empresários. Não mesmo. Os protestos multitudinários
provavelmente não se repetirão porque os "black blocs" cumpriram a
missão de afastar das ruas as pessoas comuns. Os envelopes urbanos das
"arenas da Fifa", perímetros consagrados aos negócios, serão
circundados por cordões policiais de magnitude inédita. Já a
"baderna" arquitetada para provocar colapsos de circulação em dias de
jogos terá que desafiar a hipótese de resposta militar. Na Copa, excepcionalmente,
o direito de ir e vir estará assegurado.
Dilma promete "chamar o
Exército". A força militar aparece, hoje, como a única mola capaz de
conciliar o "padrão Fifa" com o "padrão Brasil" de ordem
pública. Um estado de sítio não declarado instaurará um efêmero parêntesis no
tormento cristalizado pela política da "baderna" nas principais
cidades do país. Nos 30 dias da competição, a "imagem do Brasil"
brilhará sobre um pano de fundo verde-oliva. Depois, tudo volta ao
"normal".
Nenhum comentário:
Postar um comentário