DEFEITOS DO DISCURSO
Miriam
Leitão
O
GLOBO - 02/05
A presidente Dilma, no
discurso que fez para o 1º de maio, usou o espaço concedido a quem exerce o
cargo para fazer campanha política. E sofismou. Disse que, se não tivesse
baixado o preço energia, ele teria subido mais. É o oposto: porque ela reduziu
as tarifas, quando o custo estava subindo, as empresas estão quebradas e sendo
socorridas pelo Tesouro.
Dos defeitos do discurso, o
mais constrangedor para o próprio governo é a repetição da estratégia usada
pelos militares, de confundir crítica à sua administração com desamor ao
Brasil; é investir contra quem pede apuração da corrupção na Petrobras com
ataque à companhia, em si, fundada há 60 anos. A empresa não pertence ao PT. A
história e a importância da petrolífera não estão em discussão. Esse deliberado
contorcionismo dos fatos é que agrava o uso do horário disposto para a
Presidência da República como se fosse um palanque.
Dilma disse que está sendo
feito uso político da inflação. Quem está usando? Quem fala com preocupação do
problema ou o governo, que represa preços que terão que ser corrigidos mais
adiante? Ela disse que o país vive há 11 anos o mais longo período de inflação
controlada. Ora, qualquer pessoa sabe no país que a hiperinflação foi vencida
há 20 anos. Na entrada do governo Lula, o medo de perder a estabilidade elevou
a taxa.
Apenas o recuo em relação à
proposta econômica do PT é que manteve a inflação controlada. Ainda assim, os
índices têm permanecido no governo Dilma no teto da meta.
O que ameaça a estabilidade
é a insistência no uso da contabilidade criativa, que faz com que não se possa
usar pelo valor de face vários números divulgados pelo Ministério da Fazenda. O
problema avançou pela área de energia produzindo o esdrúxulo empréstimo à
Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, usado para esconder o tamanho
exato do socorro às empresas elétricas.
Ela sabe que há um problema
com a dupla indexação do salário mínimo porque o debate se trava inclusive
dentro da sua equipe econômica. A fórmula de correção é pela inflação e pelo
crescimento de dois anos antes. Se a inflação estivesse baixa, e o crescimento,
alto, seria uma correção mais sustentável; mas no governo da presidente Dilma
ocorreu o oposto: a inflação é alta e o crescimento é baixo. O problema do
salário mínimo subindo em termos reais num cenário assim não é das empresas,
mas das contas públicas. Ele impacta principalmente a Previdência. Ela sabe
disso, porque desse assunto se fala no governo, mas no discurso em cadeia
nacional ela diz que há ataque ao trabalhador e aos seus ganhos salariais.
O debate eleitoral que vai
se travar até as urnas vai, evidentemente, mostrar os problemas criados pelo
governo. A candidata vai se defender e já se sabe agora com que malabarismos e
estratégia. Não haverá uma conversa sincera. Se houvesse, a presidente diria
que é preciso fazer um ajuste em várias áreas de seu governo, no qual há uma
corrida para tapar os furos que estão fazendo água.
O governo não cumpre as
metas fiscais, maquia os números; não garante o preço da energia mais baixo porque
o anúncio da benesse foi uma falácia; nunca levou a inflação para o centro da
meta; suas projeções de crescimento não se realizaram. Para cada problema que
se agrava, arquiteta-se um truque para escondê-lo até as eleições.
A política de transferência
de renda aos extremamente pobres tem o mérito no foco aos que mais precisam.
Veio sendo construída e aperfeiçoada a cada administração. Deveria ser
apresentada como um direito do cidadão, mas vira populista quando é apresentada
como uma doação do seu governo. Como todo o dinheiro que distribui sai dos
bolsos dos cidadãos, é a sociedade brasileira que tem escolhido combater a
pobreza. Não é benemerência; é decisão do país e direito dos mais pobres.
Esperar que o governo
reconheça seus erros, fraquezas e defeitos em período eleitoral é inútil.
Portanto, o que a presidente Dilma tem feito em todos os seus pronunciamentos é
apresentar a defesa — e o ataque como defesa — no discurso construído pelos
marqueteiros. A torcida é para que a próxima administração, seja dela ou não,
corrija os rumos o mais cedo possível.
Nenhum comentário:
Postar um comentário