Lula, Boulos e as fantasias burguesas
REINALDO
AZEVEDO
FOLHA
DE SP - 18/07
O MTST resgata certa pureza
e certa crueza proudhonianas, distantes do legalismo petista
O MTST, os ditos
"trabalhadores sem teto", está descontente com os serviços de
telefonia. Na quarta, seus militantes protestaram na Anatel e nas respectivas
sedes da TIM, Claro e Oi. Não deu tempo de ir à da Vivo. A turma agencia também
essa causa. Um comunicado parece inaugurar a fase holístico-roqueira do
socialismo: "Se acham que a gente vai se contentar só com nossa casa,
estão enganados. Queremos moradia, transporte público de qualidade, telefonia e
internet, e a gente não aceita pagar caro, não". É o
"aggiornamento" dos Titãs --"A gente não quer só
iPhone..."-- e o embrião de um novo partido.
Guilherme Boulos, um dos
comandantes do MTST e colunista desta Folha, traz consigo o charme irresistível
da renúncia. Oriundo da classe média-alta, com formação intelectual, prefere
dedicar-se à categoria dos "Sem" --até dos "Sem-Sinal" de
telefonia. Lembro-me do fascínio que tive ao ler, aos 15 anos, "Minha
Vida", a autobiografia de Trótski. Largou as benesses do pai abastado para
morar no quintal do jardineiro Shvigovski, o revolucionário "do
pomar". Um encanto!
A coisa meio chata para mim
é que eu lia o livro com um fio de lâmpada sobre a cabeça, na cozinha de
modestíssimos dois cômodos, à beira de um córrego fétido. Não demorei a
entender que certa renúncia é um privilégio de classe, não uma superioridade
moral. Dispensar a riqueza abre a vereda para a terra da santidade. A
trajetória contrária é coisa de um parvenu. Muita gente com dificuldades de
acreditar em Deus crê nos profetas.
Não falo de Boulos, mas do
que ele representaria: o anunciador de uma nova era, quem sabe uma Idade de
Ouro da real igualdade, uma espécie de celebração do encontro de Virgílio com
Marx. "Ecce homo." Lula sempre constrangeu as esquerdas com suas
grosserias. Em 1979, por exemplo, concedeu uma entrevista à revista
"Playboy" (is.gd/g948iR) em que barbarizou.
Confessou, de modo oblíquo,
que sua iniciação sexual se dera com animais. Pegava as viuvinhas que iam ao
sindicato resolver problemas relacionados à Previdência. Conhecia o sogro de
Marisa, sua atual mulher --então viúva--, e pensava: "Ainda vou papar a
nora desse velho". Filosofou: "O problema de mulher é você conseguir
pegar na mão. Pegou na mão"¦". Admirava pessoas "que estiveram
ao lado dos menos favorecidos". Entre os mortos, Tiradentes, Gandhi, Che
Guevara, Mao Tse-tung e Hitler ("mesmo errado" --ufa!!!). Entre os
então vivos, Khomeini e Fidel Castro. Mas a semente estava lá. Pensou alto:
"É preciso fazer alguma coisa para ganhar mais adeptos, não se preocupar
com a minoria descontente, mas se importar com a maioria dos contentes".
Poderia ser a divisa de um fascismo. Deu no petismo.
Poucos, ou ninguém, teriam
sobrevivido àquela entrevista. As circunstâncias históricas --primeiro ano da
"ditadura esculhambada", de Figueiredo-- o salvaram. Era a suposta
realização de um projeto acalentado por parte da esquerda: o "intelectual
orgânico" da classe operária, que não mais distinguia o pensar do fazer.
Em 1982, candidato ao governo de São Paulo, foi inquirido por Rogê Ferreira, do
PDT: "Você é socialista, comunista ou trabalhista?". Lula mandou ver:
"Sou torneiro mecânico". Marilena Chaui aplaudiu como se fosse
Spinoza. Ela encontrava, finalmente, a "nervura do real".
Mas Lula também já é um
parvenu. Há quem não goste dele não por aquilo que pensa, mas por ter traído
supostos emblemas de sua "classe natural". O MTST, atuando como
partido, resgata, por intermédio de sua principal liderança, certa pureza e
certa crueza proudhonianas, distantes do legalismo petista. Ao movimento, tudo
é permitido --violar leis ou furar a fila das pessoas que aguardam,
pacificamente, por uma casa. Se preciso, a turma cerca o Poder Legislativo e sobrepõe
a vontade de uns poucos milhares aos votos de muitos milhões. É a
"democracia direta" reduzindo o grupo decisório para ganhar
eficiência, compreendem?
Lula foi a encarnação do
delírio das esquerdas à espera do "intelectual orgânico" da classe
operária. Mas ele se aburguesou sem nunca ter buscado a altitude das ideias.
Boulos, não! Ele nos devolve ao refinado Iluminismo francês. Os seus sem-teto
são os "sans-cullotes" das fantasias jacobinas --que são, desde
sempre, fantasias... burguesas!

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