Munição eleitoral
LUIZ
GARCIA
O
GLOBO - 01/08
Pelo menos em tese, no
sistema político vigente no Brasil cidadãos e instituições privadas têm direito
a ter opinião sobre o que acontece no país, e isso inclui, obviamente, o
comportamento de quem o governa. Quando atingidos por críticas de adversários
políticos, os ocupantes do poder costumam reagir, com a ênfase que considerarem
oportuna e necessária.
Temos, no momento, um
episódio de natureza inédita: o banco espanhol Santander enviou aos seus
correntistas de alta renda um comunicado que provocou enérgica reação da
presidente Dilma. O que era inevitável. Para os especialistas do banco, a
economia do país está enfrentado séria crise, com “baixo crescimento e alta
inflação”.
A análise do Santander é
fortemente pessimista, ao acrescentar: “Difícil saber até quando vai durar esse
cenário e qual será o desdobramento final de uma queda ainda maior de Dilma
Roussef nas pesquisas.” Um político da oposição dificilmente seria mais
pessimista.
Dilma e Lula reagiram com
previsível energia. E o banco se encolheu: imediatamente anunciou ter demitido
um funcionário devido ao episódio. Segundo o presidente do Conselho do Santander,
Emilio Botin, “a pessoa foi demitida porque o banco, advertido, disse que tinha
de ser demitida antes”. Não é uma explicação que se entenda com facilidade, e é
bem possível que não seja engolida com facilidade no Palácio do Planalto.
Note-se que a análise
pessimista do Santander não é uma atitude isolada. Recentemente, a Consultoria
Empiricus, que analisa o comportamento de ações na Bolsa, fez uma campanha na
internet aconselhando investidores sobre “como proteger seu patrimônio em caso
de reeleição da Dilma”. A campanha saiu do ar depois de um protesto do PT no
Tribunal Superior Eleitoral.
Pelo visto, a reação do
Planalto foi eficaz. Um economista ouvido pelo jornal afirmou que, devido à
atitude do governo, “os analistas não serão mais tão agressivos em suas
declarações”. É mesmo o que se pode esperar: especialistas do mercado não são
políticos, e nada têm a lucrar com a antipatia de quem manda no país. Cabe aos
partidos que se opõem ao governo transformar essa antipatia em munição
eleitoral.
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