À margem da lei
MIRIAM
LEITÃO
O
GLOBO - 09/08
No princípio, eu me assustei
como cidadã. Era difícil acreditar que da Presidência da República foram
postados ataques caluniosos a pessoas, porque na democracia o aparato do Estado
não pode ser usado pelo governo para atingir seus supostos adversários. A propósito:
não sou adversária do governo; sou jornalista e exerço meu ofício de forma
independente.
Só no segundo momento é que
pensei no fato de que os ataques eram contra mim e meu colega Carlos Alberto
Sardenberg. Ninguém, evidentemente, tem que concordar com o que eu escrevo ou
falo no rádio e na televisão. Há, em qualquer democracia, um debate público, e
eu gosto de estar nele. Mas postaram mentiras, e isso pertence ao capítulo da
calúnia e difamação.
Tenho 40 anos de vida
profissional e um currículo do qual me orgulho por ter lutado por ele, minuto a
minuto. Acordo de madrugada, vou dormir tarde, estudo diariamente, falo com
pessoas diversas, apuro, confiro dados, para que cada opinião seja baseada em
fatos. Alguns temas são áridos, mas gosto de mergulhar neles para traduzi-los
para o público.
Na primeira vez que um amigo
me mostrou o perfil cheio de ataques na Wikipedia fiquei convencida de que era
coisa de desocupados. Saber que funcionários públicos, computadores do governo,
foram usados na Presidência da República para um trabalho sórdido assim foi um
espanto. Uma das regras mais caras do Estado de Direito é que o grupo político
que está no governo não pode usar os recursos do Estado contra pessoas das
quais não gosta.
O início da minha vida profissional
foi tumultuado pela perseguição da ditadura. No Espírito Santo, fui demitida de
um jornal por ordem do governador Élcio Álvares. Em Brasília, fui expulsa do
gabinete do então ministro Shigeaki Ueki, durante uma coletiva, porque ele não
gostava das minhas perguntas e reportagens. O Palácio do Planalto não me dava
credencial porque eu havia sido presa e processada pela Lei de Segurança
Nacional. Aquele governo usava o Estado contra seus inimigos. E eu era, sim,
inimiga do regime.
Na democracia, em todos os
governos, ouvi reclamações de ministros e autoridades que eventualmente não
gostaram de comentários ou colunas que fiz. Mas eram reclamações apenas,
algumas me ajudaram a entender melhor um tema; outras eram desprovidas de
razão. Desta vez, foi bem diferente; a atitude só é comparável com a que
acontece em governos autoritários.
O Planalto afirma que não
tem como saber quem foi. É ingenuidade acreditar que uma pessoa isolada,
enlouquecida, resolveu, do IP da sede do governo, achincalhar jornalistas. A
tese do regime militar de que os excessos eram cometidos pelos "bolsões
sinceros, porém radicais" nunca fez sentido. Alguém deu ordem para que
isso fosse executado. É uma política. Não é um caso fortuito. E o alvo não sou
eu ou o Sardenberg. Este governo desde o princípio não soube lidar com as
críticas, não entende e não gosta da imprensa independente. Tentou-se no início
do primeiro mandato Lula reprimir os jornalistas através de conselhos e
controles. A ideia jamais foi abandonada. Agora querem o "controle social
da mídia", um eufemismo para suprimir a liberdade de imprensa.
Sim, eu faço críticas à
política econômica do governo porque ela tem posto em risco avanços duramente
conquistados, tem tirado transparência dos dados fiscais, tem um desempenho lamentável,
tem criado passivos a serem pagos nos futuros governos e por toda a sociedade.
Isso não me transforma em inimiga. E, ainda que eu fosse, constitucionalmente o
governo não tem o direito de fazer o que fez. É ilegal e imoral.
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