- EDITORIAL DO JORNAL GAZETA DO POVO - PR - 29/10
“O ENEN IDEOLÓGICO”
Já se tornou hábito, ano
após ano, a busca por indícios de viés ideológico no Exame Nacional do Ensino
Médio (Enem). Não se trata de paranoia: não são poucas as questões de exames
anteriores que pareciam feitas para induzir os alunos a oferecer respostas de
acordo com certa ideologia para conseguir melhores notas. Neste ano não foi
diferente: logo no primeiro dia de exame, no sábado passado, várias questões
foram apontadas como enviesadas, e a polêmica cresceu no domingo, com o assunto
escolhido para a redação.
As críticas ao tema da
redação, no entanto, nos parecem um tanto exageradas. Não há motivo para que a
violência contra a mulher não fosse abordada na redação de uma prova como o
Enem, ainda mais à luz dos números apresentados como subsídio para a atividade.
No entanto, pode haver margem para manipulação ideológica dependendo dos
critérios de correção adotados. Supondo o caso de dois estudantes que
demonstrem igual domínio do idioma e capacidade de argumentação, seria
totalmente impróprio dar nota maior àquele que compusesse seu texto adotando as
chaves marxistas de “opressor/oprimido”, culpando a “sociedade patriarcal” pela
violência contra a mulher, e uma nota menor ao candidato que enfatizasse a
responsabilidade individual do agressor e criticasse a objetificação da mulher
promovida por determinadas manifestações culturais contemporâneas que um certo
multiculturalismo obriga a aceitar como legítimas. Mas isso é algo que
independe do tema em si proposto para a redação: depende das disposições dos
corretores e daqueles que orientam seu trabalho, e o resultado só tem como ser
avaliado a posteriori, após cada estudante conhecer sua nota no exame.
É olhando os cadernos de
questões objetivas que se encontram sinais mais preocupantes. Uma pergunta
sobre o movimento feminista nos anos 60 traz consigo uma citação de Simone de
Beauvoir que pode ser interpretada como defesa explícita das teorias de gênero
rejeitadas por Legislativos em todo o país, nos três níveis, mas que o MEC
insiste em promover. Um texto do geógrafo de esquerda Milton Santos é usado
como base para uma questão cuja resposta considerada correta leva o estudante a
concluir que uma consequência da “globalização perversa” é o “aumento dos
níveis de desemprego”. Os movimentos sociais são exaltados em uma questão que
usa como base um texto de Maria da Glória Gohn, entusiasta do MST e que, nos
protestos de 2013, afirmou que os vândalos black blocs representavam a
“resistência”. Uma citação de Slavoj Zizek, um dos novos teóricos da “violência
revolucionária”, é usada para igualar a ação militar norte-americana no
Afeganistão ao terrorismo dos extremistas islâmicos. A crise econômica
brasileira atual é ignorada, mas a crise mundial de 2008 – aquela que está na
raiz de todos os nossos problemas, a julgar pelo que diz a presidente Dilma
Rousseff – é mencionada em uma questão. O mercado e o capitalismo são apontados
como causa de uma “polarização da sociedade chinesa” e descritos com viés
negativo em uma das questões. Outra citação defende que não havia distinção
nenhuma entre a arte produzida pelos europeus e a arte dos povos do Novo Mundo.
Todas essas são
manifestações de um pensamento de esquerda, sem falar da desproporcionalidade
verificada quando se analisa todos os autores e publicações usados na prova de
“ciências humanas e suas tecnologias”. Não se questiona a presença desses
autores no exame; o ideal é que o conjunto das questões ofereça ao candidato
uma visão abrangente das ideologias mais expressivas no mundo atual. O problema
aparece quando os representantes de uma ideologia específica são citados com
muito mais frequência que os demais. Os poucos autores clássicos ou liberais
citados no Enem 2015, como David Hume ou Tomás de Aquino, foram soterrados por
uma profusão de autores como Slavoj Zizek, Milton Santos, Simone de Beauvoir ou
Paulo Freire.

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