A falência e
o deboche
CLÓVIS ROSSI
FOLHA
DE SP - 05/02
Neste
início de fevereiro, três ruínas combinaram de se encontrar em um país chamado
Brasil.
Sejamos absolutamente
francos: o Brasil é uma ruína (ou, na melhor das hipóteses, está uma ruína).
Um país na iminência do
racionamento de água e de energia elétrica encontra-se em estado falimentar.
Mas, se fosse apenas uma crise hídrica e/ou energética, ainda dava para
acreditar que Deus, tido como cidadão brasileiro, daria um jeito, mandando
chuva suficiente para abastecer os reservatórios.
Acontece que a ruína é
também moral/ética, econômica, social, política, de ideias, de tudo, a rigor.
Para não voltar muito ao
passado, examinemos rapidamente o cenário econômico, tal como lembrado por
Delfim Netto, na sua coluna desta quarta-feira (4), na Folha.
"Não é possível ignorar
que em 2014, quando a única preocupação do governo foi a sua vitória numa
intensa e cruel campanha eleitoral, as consequências foram muito ruins: deficit
primário de 0,6% do PIB; deficit fiscal total de 6,7% do PIB; gasto com juros
para o pagamento da dívida de R$ 250 bilhões, em torno de 5% do PIB,
acompanhados por um aumento da relação dívida pública bruta/PIB para 63,4% do
PIB, por uma taxa de inflação de 6,41% e por um surpreendente deficit em conta
corrente de US$ 91 bilhões, 4,2% do PIB".
Faltou dizer que o
crescimento, se for zero, será um bom resultado.
Passemos para outra ruína, a
ética, e citemos outro colunista da Folha, Matias Spektor:
"Estima-se que a
roubalheira envolvendo cofres públicos tenha custado até 5% do PIB só na última
década. E quando Collor foi posto para fora, em 1992, o índice de confiança nos
políticos era de 31%.
Treze anos depois, durante o
mensalão, era de apenas 8%".
Spektor lembra que ainda
está para ser contabilizado o pai de todos os escândalos, o
"petrolão".
Digo o pai de todos porque é
o primeiro, pelo menos até onde vai minha memória (que é de longo alcance), em
que foram para a cadeia executivos de grandes empresas.
Ou seja, é uma das primeiras
vezes em que são apanhados não apenas os corruptos de costume (em geral
funcionários públicos ou políticos) mas também os corruptores (o lado privado
da corrupção).
Nesse cenário, o que se
poderia esperar da classe dirigente seriam demonstrações de preocupação, a
busca urgente de respostas, providências capazes de estancar uma e outra
sangria.
O que se viu, no entanto,
neste domingo, foi o deboche.
Pelo excelente relato de
Bruno Boghossian, na festa da vitória de Eduardo Cunha (ela, em si, já é um
deboche), os dois principais articuladores políticos do governo foram
ridicularizados.
Aloizio Mercadante (Casa
Civil) foi chamado de Freddie Mercury, vocalista já morto do grupo Queen, pelo
seu bigode, ao passo que Pepe Vargas (Relações Institucionais) virava Pepe
Legal, o desastrado personagem de desenho animado.
Quando o deboche se dá entre
companheiros de base governista, tem-se um retrato acabado da ruína política em
que se encontra a pátria amada.
Tudo somado, o fato é que
três ruínas combinaram encontro neste fevereiro.
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