Comendo poeira dos europeus
Editorial
O Estadão
O
ESTADO DE S.PAULO - 06//02
Com o Brasil crescendo menos
que a maior parte dos países, tanto emergentes quanto desenvolvidos, fica mais
difícil culpar o resto do mundo pela estagnação brasileira - um recurso usado
amplamente pela presidente Dilma Rousseff. A nova má notícia para quem usa esse
tipo de discurso acaba de chegar da Europa. Segundo a Comissão Europeia, o
Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro deve crescer 1,3% neste ano e o da
União Europeia, 1,7%. Nas duas projeções houve um aumento de 0,2 ponto
porcentual em relação aos números estimados há seis meses. Se os fatos
confirmarem a expectativa, a produção crescerá nos 28 países do bloco europeu
pela primeira vez desde 2007, ano anterior à crise iniciada no setor financeiro
com o estouro da bolha imobiliária. Para 2016, as projeções são de 1,9% de
expansão para a área do euro e de 2,1% para o bloco total.
As projeções de crescimento
na União Europeia, em 2015, variam de 0,2% para a Croácia a 3,5% para a
Irlanda, mesma taxa estimada para a economia americana, a maior do mundo. Até a
Croácia terá desempenho melhor que o do Brasil. O PIB brasileiro deverá
aumentar 0,03% neste ano, segundo a mediana das projeções coletadas pela
pesquisa Focus, conduzida semanalmente pelo Banco Central (BC). Cerca de cem
instituições são consultadas nessa sondagem.
O Brasil aparece com
perspectivas pouco melhores, mas nada entusiasmantes, em outros conjuntos de
projeções. As últimas estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI),
divulgadas no fim de janeiro, indicaram expansão de 1,2% para a zona do euro
(pouco inferior ao novo número da Comissão Europeia) e de 0,3% para o Brasil.
Naquele momento, as previsões dos economistas brasileiros também eram mais
otimistas, apesar de muito sombrias. Em qualquer dos cenários divulgados a
partir do último trimestre de 2014, o País aparece entre os últimos colocados
na corrida internacional do crescimento econômico - e sempre com taxas muito
próximas de zero.
As novas estimativas da
Comissão Europeia são justificadas com três fatores: a redução do preço do
petróleo, o novo Plano de Investimento da Europa e a decisão do Banco Central
Europeu (BCE) de continuar afrouxando a política monetária. A nova etapa dessa
política deve incluir a emissão de até 1,1 trilhão, em cerca de um ano e meio,
por meio da compra de títulos soberanos e de papéis privados. A inflação deve
continuar muito baixa este ano. Em 2016, poderá atingir 1,3% na zona do euro e
1,4% na União Europeia. Até lá, haverá espaço para o BCE manter uma política
expansionista.
No Brasil, a situação dos
preços é muito diferente. O BC elevou os juros mais uma vez em janeiro e os
economistas do mercado financeiro preveem pelo menos mais um aumento neste ano.
A inflação estimada para 2015 chegou a 7,01% na semana passada. Boa parte das
pressões virá da correção de preços politicamente represados nos últimos anos.
Além disso, o ajuste programado para as contas públicas deixará pouco espaço
para a expansão econômica nos próximos meses. Os dois arrochos, o monetário e o
fiscal, são necessários para o reparo dos danos causados à economia brasileira,
especialmente nos últimos quatro anos, pelos erros e truques do governo.
A Comissão Europeia
apresentou suas novas projeções com as necessárias advertências e sem abusar do
otimismo. A expansão ainda será limitada pelo baixo investimento e o desemprego
continuará elevado, apesar de alguma redução. No conjunto, a parcela dos
desempregados deverá diminuir de 10,2% no ano passado para 9,8% em 2015 e 9,3%
em 2016.
Mas nesse ponto a vantagem
brasileira é estreita e discutível. No terceiro trimestre de 2014, o desemprego
no Brasil ficou em 6,8%, segundo a Pnad, a pesquisa mais ampla do IBGE. Esse
número foi pior que os da Alemanha, do Reino Unido, da Dinamarca, da Áustria e
da Holanda, entre outros. Além disso, os empregos criados no País têm sido de
baixa qualidade. Melhor evitar bravatas em relação a esse ponto e cuidar da
saúde da economia.

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