O PT e a imprensa “simpática”
EDITORIAL
O ESTADÃO
O
ESTADO DE S.PAULO 23/03
É sabido que a proposta do
PT para "regulamentar a mídia" nada mais é do que a intenção de
submeter a imprensa ao governo petista e ao próprio partido. Os petistas douram
a pílula para convencer a opinião pública de que não se trata de uma forma de
censura e, eventualmente, podem confundir os incautos. No entanto, quem ainda
tiver alguma dúvida sobre qual é realmente o espírito que preside esse projeto
do partido basta prestar atenção ao que disse o presidente da agremiação, Rui
Falcão, em recente reunião com parlamentares do PT na Câmara: o caminho,
sugeriu ele, é asfixiar os veículos de comunicação que ousarem portar-se com
independência e espírito crítico em relação ao governo petista.
Segundo relatos de
participantes do encontro, Falcão defendeu que o governo corte a verba de
publicidade destinada a veículos de comunicação que, no seu entender,
"apoiaram" e "convocaram" as manifestações populares do
último dia 15. Para o presidente do PT, é necessária "uma nova política de
anúncios para os veículos da grande mídia". Pode-se depreender que essa
"nova política" seja, simplesmente, colocar anúncios do governo
somente em jornais e emissoras de TV que sejam camaradas.
Para demonstrar a urgência
de uma nova política de distribuição das verbas publicitárias, Falcão
argumentou que o clima beligerante contra Dilma e o PT levou até mesmo a TV
Record, segundo ele um veículo "simpático" ao governo, a participar
da suposta mobilização nacional por parte da imprensa para incitar os protestos
de rua - mas isso, disse Falcão, ocorreu somente em razão da "briga por
audiência". O importante a se observar é que, ao mencionar a suposta
existência de veículos "simpáticos", Falcão demarca o território em
que o PT julga disputar a guerra da comunicação: há os amigos e os inimigos.
Aos primeiros, tudo; aos segundos, a danação.
Falcão sugeriu que a
estratégia usada até agora para enfrentar o que julga ser uma campanha
orquestrada pela grande imprensa para desacreditar o partido e o governo não
tem dado resultado. "Não se enganem. O monopólio da mídia não será
quebrado apenas nas redes sociais. Isso é uma ilusão", disse o presidente
petista, referindo-se à comunidade de blogueiros e ativistas digitais montada
para defender o PT e agredir sistematicamente a imprensa livre.
Por um momento, os
estrategistas do partido julgaram que a guerra da comunicação seria ganha no
ambiente virtual. No entanto, como reconheceu um documento da Secretaria de
Comunicação Social que criticou a política oficial de comunicação, "o
governo e o PT passaram a só falar para si mesmos".
Mas o PT não perdeu espaço
apenas nas redes sociais; parece ter perdido também as ruas, lugar onde
reinava. Isso explica a aflição de Falcão e de seus companheiros. Como sempre
acontece com aqueles que interpretam o mundo exclusivamente por meio da
ideologia, e não da razão, os petistas atribuem esses reveses não aos erros que
o partido e a presidente Dilma Rousseff cometeram, mas a uma grande conspiração
das "elites" para derrubar o "governo popular".
Em flagrante estado de negação,
Falcão atribuiu o enorme sucesso das manifestações do dia 15
"exclusivamente" ao suposto trabalho da "grande mídia" -
responsável, segundo ele, por tirar as pessoas de casa e por inflar o número de
participantes.
Com isso, o presidente do
PT, bem como a maioria de seus pares, parece ter se convencido de que nada há
de errado no País, que tudo vai às mil maravilhas e que, se não fosse a
imprensa "golpista" a conclamar os brasileiros a se manifestar, a
população não teria ido às ruas.
A receita petista para
resolver esse problema é simples: tratar as verbas de publicidade do governo
como se fossem do PT. O princípio da impessoalidade, que deve nortear qualquer
administração pública - e está explicitamente inscrito na Constituição -, é
estranho a um partido que se acredita proprietário do poder. Por enquanto,
Dilma tem resistido aos insistentes apelos do PT para que submeta a imprensa
aos desígnios autoritários do partido. Espera-se que seu enfraquecimento
político não a faça capitular.

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