Criminalizar o social
PAULO SILVA PINTO
CORREIO
BRAZILIENSE - 29/05
Confesso que não consigo
entender essa história de criminalização dos movimentos sociais. E olha que não
é por falta de ouvir o termo, com subentendido alerta: não pode. Soa paradoxal.
Quem se criminaliza é a pessoa que ofende o Código Penal: mata, machuca, rouba,
furta, ameaça, calunia. Pode ser banqueiro, sem-terra, funcionário público,
policial, político, monge, usuário de crack, jornalista ou gente de tantos
outros tipos. Não importa.
Falo de pessoas. Movimentos,
associações, empresas não cometem crimes. E o fato de existir um condenado por
delito em determinado grupo não significa, de modo automático, que outros
integrantes sejam culpados.
O problema é que se criou
uma ideia de que alguns cidadãos não podem ser punidos quando erram, por já
terem sofrido muito ao longo da vida e, ainda, carregarem a história de
opressão dos ancestrais. Não é difícil compreender tal preocupação em um país
que acumulou tantas mazelas em 514 anos. Mas não se poderá avançar reciclando a
lamentação para transformá-la em leniência. A antropóloga Eunice Durham costuma
dizer que, no Brasil, para resolver uma injustiça frequentemente se cria outra.
Décadas de ditadura civil e
militar no século passado atrapalharam muito a formação da nossa sociedade. Em
regimes assim, a Constituição, as leis e o próprio Estado se tornam ilegítimos.
Passa a ser moralmente aceitável transgredir.
Foi dura a conquista da
democracia. Para não regredir, de modo radical ou parcial, é preciso
compreender que algumas coisas antes vistas como luta pela liberdade passaram a
ser atentado à sociedade.
A divergência e a
contestação devem estar vivas pela manifestação das ideias, pelo acesso ao
Judiciário e pelo exercício da política. Jamais podem justificar crimes. Um
dia, talvez todo mundo compreenda isso. Enquanto buscamos essa utopia, cabe ao
Estado defender a sociedade, sem abrir mão do uso da força quando necessário. É
assim que funcionam as democracias mais avançadas, não isentas de tensões.
Gente que lança flechas
contra policiais, destrói patrimônio público e privado, queima pneus ou
simplesmente impede as pessoas de ir e vir nas vias públicas não prejudica
apenas quem está em volta. Pune todos os brasileiros. Até os que nem nasceram
ainda.
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