Sair do pântano
MIGUEL
REALE JÚNIOR
O
ESTADO DE S.PAULO - 04/10
Amanhã se começa a decidir o
futuro do Brasil. São 12 anos de governo do PT, que a todo custo pretende
permanecer no poder. Lula em discurso recente, segurando os ombros de Dilma,
disse pausadamente: "Eles não sabem o que somos capazes de fazer para ter
você por mais quatro anos".
Boa parte da sociedade,
cerca de 50%, que votará na oposição ao PT, em Marina ou Aécio, no primeiro
turno, com certeza teme o que Lula e companheiros possam fazer, mas creio que
jamais imaginariam a adoção, na propaganda eleitoral, das táticas desleais
próprias do totalitarismo, não sendo admissível que a presidente, com a
responsabilidade do cargo, viesse a desinformar a sua população no processo de
desconstrução da adversária.
Hitler considerava, como
destaca Domenach em conhecido trabalho (La Propagande Politique, Paris, 1950),
ter a grande maioria, a massa, disposição a que suas opiniões e seus atos sejam
determinados antes pela impressão causada em seus sentidos do que pela
reflexão. A tática da propaganda em regime autoritário consiste em alternar
terror e exaltação.
O terror infunde-se, como
explica em outro trabalho clássico Driencourt (La Propagande, Nouvelle Force
Politique, Paris, 1950), pela ligação de situação que a sensibilidade geral
aceita integralmente, sem discussão, com uma ideia que se pretende incutir,
relacionando-a falsamente com a situação já acolhida. Para a grande maioria, a
percepção do papel dos bancos e dos banqueiros é a de explorar os mais fracos e
se beneficiar com sua pobreza, refestelando-se com a desgraça alheia para
encher as burras (vejam-se juros do cartão de crédito e do cheque especial). A
propaganda de Dilma valeu-se dessa posição emocional, aceita sem discussão pela
sociedade, e aliou falsamente a proposta de independência do Banco Central a
uma liberdade de ação dos bancos comerciais cujo resultado seria o sumiço da
comida da mesa dos pobres e a falência da educação, com o desaparecimento dos
livros de estudo, ante o sorriso triunfante dos banqueiros.
É evidente a desfaçatez, a
desonestidade intelectual, como se o Banco Central, uma autarquia responsável
pela definição da política monetária, fosse um banco comercial e sua
independência não significasse, como em todos os países desenvolvidos, a
garantia de condução da economia e de promoção de estabilidade da moeda, longe
dos interesses políticos efêmeros. Pouco importa que Dilma já tenha defendido a
autonomia do Banco Central, o que interessa para manter o poder é deslanchar
uma artilharia psicológica visando a amedrontar a população, alertando para o
desastre da vitória da adversária à qual se atribui, mesmo contra todas as
evidências, a instalação do reino dos banqueiros, a desgraça dos pobres com o
fim do Bolsa Família. A parcela pensante do eleitorado vê a desgraça em ficar
nas mãos de pessoas que mentem descaradamente para assegurar o poder a qualquer
custo, como ameaçou Lula.
Hitler, em seu livro Minha
Luta, pregava abertamente que a propaganda deve estabelecer o seu nível
intelectual segundo a capacidade de compreensão do mais limitado dos seus
destinatários. Assim, valeu-se a propaganda dilmista do desconhecimento de boa
parte do eleitorado do que seja o Banco Central para unir à proposta de sua
autonomia a consequência de plena liberdade dos bancos comerciais, quando a
verdade é exatamente o contrário. Sem jamais nenhum candidato ter dito que
interromperia o benefício do Bolsa Família, apregoava-se, na propaganda de
Dilma, o seu fim iminente com a vitória de Marina ou de Aécio.
Se, de um lado, se cria um
clima de terror, de outro se apresenta o Brasil como a Ilha da Fantasia, onde
tudo corre às mil maravilhas, com grandes conquistas, num ufanismo graças ao
qual se propaga que somos todos felizes e continuaremos felizes se mantivermos
Dilma e seu grupo no poder. O cúmulo da exaltação foi a utilização, sem nenhum
constrangimento da presidente, da tribuna da ONU na abertura da
Assembleia-Geral para falar ao público interno sobre as conquistas do governo
Lula e do seu, visando a aparecer nos noticiários televisivos dando a impressão
de se constituir numa consagração universal.
Nesta hora de definição, é
importante que a decisão seja no sentido de escolher quem possa derrotar Dilma
e tenha condições de liderança pessoal para levar à frente a restauração do
País nos planos moral e econômico. Marina, por sua trajetória de lutas, pode
vir a cumprir esse papel fundamental. E deverá fazê-lo com o apoio do PSDB, tal
como sucedeu no governo Itamar Franco, quando esse partido deu respaldo
político e massa crítica com a participação de ilustres peessedebistas em
órgãos da administração, assegurando governabilidade e condições técnicas para
mudar o País, tal como efetivamente mudou com o Plano Real.
O receio de Marina ter sido
do PT e ser um PT2 não pode servir de argumento contra a ex-senadora por parte
do PSDB, pois todos os seus próceres saíram do PMDB e com ele não mais se
identificam, não sendo o PMDB2, muito ao contrário. A origem não indica a linha
política atual, a ser apreendida no caminho ora palmilhado, que o programa de
Marina revela em muitos temas.
Neste quadro volátil da
eleição de amanhã, se Aécio for, por acaso, ao segundo turno contra Dilma, seu
passado como governador de Minas o credencia a bem governar o Brasil, mas
Marina e o PSB devem se unir ao PSDB, superando os ataques injustos, para
compor maioria de sustentação com o PPS de Roberto Freire e o PV, para
enfrentar um raivoso PT na oposição. A união é necessária contra a falta total
de ética na política, revelada pelas denúncias do conluio da cúpula petista com
os "malfeitos" na Petrobrás.
Enfim, ou saímos do pântano
onde viceja o aparelhamento do Estado e a corrupção ou submergimos para um
afogamento que desonra.
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