Menor do que entrou
MERVAL
PEREIRA
O
GLOBO - 23/10
Lula tem tido atuação
ambígua nesta eleição. O ex-presidente Lula tem tido uma atuação ambígua nesta
eleição. De vez em quando desaparece, dando margem a boatos de que estaria
doente ou teria brigado com a presidente Dilma. De repente, eis que Lula surge
cheio de gás num palanque no interior do Pará ou no Rio, fazendo discursos,
mais que exaltados, delirantes, em defesa do PT e da reeleição de Dilma. Do
jeito que ataca seus adversários, atirando para tudo quanto é lado, não parece
estar muito certo da vitória.
Oato falho de pedir "só
mais esta vitória" para o PT, como fez ontem, indica que o apelo é quase
desespero pela possibilidade de derrota, que nunca foi tão grande. Além da
baixaria de induzir a plateia a chamar o adversário de bêbado e drogado, ou de investir
contra jornalistas que considera adversários, Lula apela para mistificações
diversas. Chegou a perguntar onde estava Aécio Neves quando Dilma lutava contra
a ditadura com armas na mão. Ora, Aécio tinha 7 anos de idade quando Dilma
tinha 20.
Fazendo-se de ofendido, Lula
disse que Aécio não sabia como tratar uma mulher, por ter enfrentado Dilma com
palavras duras. E citou "leviana" como sendo uma ofensa à presidente.
Aproveita-se Lula do fato de que em algumas regiões do país, sobretudo no
Nordeste, "leviana" tem a conotação de prostituta. E ajuda a
disseminar a ideia de que o adversário agride mulheres, inclusive fisicamente,
como a rede suja da internet espalha incessante e anonimamente.
Mas os vídeos mostram que o
próprio Lula chamou Alckmin de leviano várias vezes nos debates de 2006. E
atacou adversários hoje aliados, como Sarney e Collor, chamando-os diretamente
de "ladrão" e palavras do gênero, o que diz nunca ter feito. Mesmo
que vença, como as pesquisas do Datafolha indicam hoje, o PT sai da eleição
menor do que entrou. E Lula também. Sobretudo por se valerem dos métodos mais
baixos para vencer.
O partido continua com a
maior bancada da Câmara, mas perdeu nada menos que 18 deputados federais.
Elegeu apenas três governadores no primeiro turno - sendo que a joia da coroa é
sem dúvida Minas, arrebatada do grupo político de Aécio -, e, nos três estados
em que ainda disputa o segundo turno, pode vencer no CE e no MS, mas deve ser
derrotado no RS, estado emblemático para o partido e para Dilma.
No Senado, continuará sendo
a 2ª maior bancada, mas com menos um senador. Para culminar a má atuação, o PT
perdeu nas eleições deste ano o privilégio de ser o partido com maior número de
votos na legenda para a Câmara, que ostentava desde 90. Para mal de seus
pecados, ainda ficou atrás do PSDB nesse tipo de voto, o que mostra a
vitalidade do partido de oposição.
Os tucanos receberam 1,92
milhão de votos, correspondentes a quase 24% dos votos válidos; o PT recebeu
1,75 milhão de votos de legenda, ou 21,6% do total de votos válidos. Em 90,
quando iniciou a hegemonia agora derrubada, o PT teve 1,79 milhão de votos,
24,1% dos válidos; e o PSDB, apenas 340 mil votos, ou 4,6%.
Por fim, com o eleitorado
literalmente dividido, o vencedor receberá um país traumatizado pela violência
da campanha desde o 1º turno, quando o PT usou de técnicas de propaganda
negativa para desmoralizar Marina Silva, e a própria Dilma, sem nenhum pudor,
insinuou que ela era sustentada por banqueiros, em referência à sua principal
assessora, Neca Setubal. É muito mais exagerado do que dizer que Lula é
sustentado por empreiteiras, o que ninguém disse.
O PT vem, desde 2010,
recebendo menos votos para presidente do que nas eleições anteriores, e a
oposição cresce. Após perder duas vezes seguidas no primeiro turno para o
ex-presidente Fernando Henrique, Lula só conseguiu vencer no 2º turno, quando
tinha uma votação em torno de 60%. Dilma foi eleita em 2010 com 56% e hoje
aparece nas pesquisas do Datafolha com 52%, empatada tecnicamente e com o risco
de perder a eleição.
A oposição já agrega a
metade dos votos válidos e, dependendo da famosa margem de erro, pode vencê-la.
Além do mais, o país ganhou uma oposição aguerrida, que, se não vencer, terá
atuação muito mais eficaz no eventual 2º mandato de Dilma, com todos os
problemas que são esperados nos próximos anos, crises econômicas combinadas com
institucionais decorrentes da delação premiada sobre a corrupção na Petrobras.
Vencedora, a oposição terá
pela frente um PT jogado novamente na oposição, com uma multidão de burocratas
partidários desempregados, cheios de rancor para dar.
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