Trapalhada bolivariana
EDITORIAL
O ESTADÃO
O
ESTADO DE S.PAULO - 08/11
Quem tem amigos do peito
como a Venezuela não precisa de inimigos. Em circunstâncias nebulosas, sem o
conhecimento de Brasília, o governo de Caracas firmou com o MST, na cidade
paulista de Guararema, convênios pelos quais se compromete a ensinar o povo brasileiro
a "seguir avançando na construção de uma sociedade socialista".
Muitos dias depois, na última quarta-feira, o governo brasileiro finalmente
protestou junto aos muy amigos. Não necessariamente pelo conteúdo dos tais
convênios, mas porque o ex-chanceler e, desde setembro, ministro do Poder
Popular para as Comunas e os Movimentos Sociais, Elías Jaua, veio ao Brasil
para assiná-los sem informar o Itamaraty. E ainda andou se metendo em confusão
policial. Uma típica trapalhada bolivariana.
É de imaginar que os
petistas tenham ficado aborrecidos com a falta de consideração dos
venezuelanos, que, se tivessem sido menos egoístas e mais solidários, teriam
possibilitado a realização de um magnífico evento popular em Guararema, talvez
até com a presença de Lula com o boné do MST e falando mal da elite.
Mas, diante de uma desfeita
que não se pode ignorar nem quando se trata de amigos fraternos, o chanceler
brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, depois de ouvir a presidente Dilma
Rousseff, convocou o encarregado de negócios da Venezuela no Brasil, Reinaldo
Segovia (o embaixador está viajando), para comunicar a "estranheza"
do governo brasileiro com o comportamento de Jaua, reclamar que o lamentável
episódio pode significar uma "interferência nos assuntos internos do
País" e cobrar explicações do governo de Caracas. Para Figueiredo, "o
fato não se coaduna com o excelente nível das relações entre os dois
países".
Os convênios foram assinados
no fim do mês passado, numa escola do MST onde são ministrados cursos de formação
política para militantes de movimentos sociais. Segundo a organização, os tais
convênios com os venezuelanos objetivam apenas "a troca de experiências na
área da agroecologia". O governo venezuelano, porém, conta uma história
diferente.
No dia 28, antes mesmo do
regresso de Jaua a Caracas, o governo bolivariano anunciou aquilo que nem o
Palácio do Planalto sabia: "No marco da visita ao Brasil do
vice-presidente de Desenvolvimento do Socialismo Territorial, Elías Jaua, foram
assinados (...) vários acordos nas áreas de formação e desenvolvimento da
produtividade comunal entre o Governo Bolivariano" e o MST. E a nota
acrescentava que, segundo Jaua, os convênios têm como objetivo incrementar o
intercâmbio de experiências para "fortalecer o que é fundamental em uma
revolução socialista, que é a formação, a consciência e a organização do povo
para defender suas conquistas e seguir avançando na construção de uma sociedade
socialista".
Não bastasse a desfeita ao
Itamaraty, a estada de Jaua no Brasil envolveu um constrangedor episódio
policial. O ministro viajou acompanhado da mulher, que foi submetida a uma
cirurgia de emergência em São Paulo. Talvez com a agenda tomada por assuntos
mais importantes, Jaua chamou, para fazerem companhia à paciente, a sogra, os filhos
e a babá destes. Ao desembarcar em Guarulhos, a babá foi presa em flagrante
pela PF e permaneceu detida por quatro dias pelo porte de uma arma que, depois
ficou esclarecido, estava numa maleta com documentos que Jaua encomendara à
funcionária.
Apurou-se em Brasília que o
Itamaraty ficou sabendo da presença de Jaua no Brasil pela PF. E ninguém foi
capaz de explicar o que estava acontecendo, até porque o governo brasileiro faz
questão de manter "um excelente nível de relações entre os dois países",
mas, de repente, viu-se surpreendido por um episódio que contraria os
protocolos diplomáticos.
O fato de o Itamaraty ter
demorado pelo menos uma semana para se manifestar sobre uma inadmissível
interferência nos assuntos internos do País sugere que o governo petista
estendeu até o limite a possibilidade de botar panos quentes na situação. Era
só o que faltava para quem assistiu passivamente ao calote que o finado Hugo
Chávez deu no contrato de parceria na construção da Refinaria Abreu e Lima, em
Pernambuco. Gente fina.

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