Os militares e a crise
ELIANE
CANTANHÊDE
O
Estado de S. Paulo - 03/04
Órgãos de inteligência do
governo, principalmente das Forças Armadas, passaram o 31 de março em estado de
alerta para detectar tanto provocações de "oficiais de pijama" quanto
manobras do "exército do Stédile" e, assim, tentar evitar confrontos.
E o que aconteceu? Nada. Poucas vezes antes neste país o 31 de março passou tão
em branco. Desta vez, a crise corre ao largo dos militares.
O temor em Brasília era de
que, neste clima político, com crises variadas, a popularidade de Dilma
Rousseff no chinelo e depois de milhões de pessoas protestando no 15 de março,
o aniversário do golpe militar de 1964 servisse de pretexto para novas
demonstrações de força e embates de rua, com resultados imprevisíveis. O temor
não se confirmou e, no final do dia, a sensação na capital da República era de
alívio.
Foi como se tivesse havido
um acordão entre os militares da reserva e os militantes de Lula/Stédile para
ninguém botar mais lenha na fogueira, para os dois lados não saírem às ruas.
Não houve acordo, obviamente, só uma avaliação fria de que não estão fortes o
suficiente para mobilizar massas e provocar comparações.
Apesar de toda a insinuação
prévia de que haveria novos atos públicos, o PT preferiu se trancar em
"plenárias", lambendo as feridas, preparando o congresso de junho e
tentando traçar o futuro numa frente com MST, CUT, UNE e acessórios que, em
nome de uma guerra extemporânea entre "direita" e
"esquerda", engolem qualquer coisa, até o indigesto desmanche da
Petrobrás.
Essas plenárias do partido
são como uma pausa para pensar, num momento em que a popularidade da presidente
bate no fundo do poço (12% de aprovação?!) e ela reza para São Levy fazer
chover e conseguir aprovar no Congresso as correções dos imensos erros que ela
própria cometeu no primeiro mandato.
Do outro lado, o militar, o
que houve foi mais do mesmo: almoço de oficiais da reserva no Clube Militar,
uma meia dúzia gritando palavras de ordem do lado de fora e outra meia dúzia
fazendo confusão em local fechado de São Paulo. Nada que mereça o título de
"manifestação". Isso só reforça que, desta vez, as Forças Armadas não
têm nenhum protagonismo. Mesmo nos bastidores, os militares debatem a crise
como qualquer cidadão: com espanto. Sem intenções, sem objetivos.
São os agentes políticos que
estão em retiro espiritual, não exatamente por causa da Semana Santa, mas para
tentar entender a dramaticidade do momento, projetar os cenários possíveis e já
se contorcendo para poder mais adiante se encaixar em diferentes hipóteses.
Dilma está em suspenso, à
espera de Levy. Levy depende desesperadamente do Congresso. O Congresso é todo
olhos e ouvidos para as ruas. Lula e o PT, atarantados, pedem socorro para as
centrais e movimentos engajados. Os movimentos engajados descobrem que não é
hora de medir forças com as classes médias irritadas. E a oposição, um tanto
deslocada do centro da cena, fica atenta à panela de pressão para decidir a
hora de aumentar ou de diminuir o fogo. Além de avaliar se poderá, ou não,
assumir algum tipo de liderança nas manifestações de rua e se chegará, ou não,
o momento de jogar algo, ou alguém, na fervura.
A próxima grande
manifestação popular está prevista para 12 de abril, primeiro domingo após a
Páscoa, e deve responder a uma pergunta que não quer calar, no governo, na
oposição, muito particularmente no PMDB: se a explosão de 15 de março vai
aumentar mais e mais, ou se aquele grito bastou e agora a maioria vai preferir
ouvir pela janela, panelas à mão. Ou seja, se aqueles milhões foram às ruas e
se recolheram, ou se foram para ficar.
Os militares estão quietos
no canto deles, mas, além dos advogados, dos policiais federais, dos
procuradores e dos jornalistas, outra categoria que vem trabalhando demais
ultimamente são os agentes de inteligência do governo. Nem eles, porém, têm
resposta para a grande pergunta da crise: no que tudo isso vai dar?

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